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Do outro lado da tela: quando o mundo virtual se torna uma dependência

Do outro lado da tela: quando o mundo virtual se torna uma dependência

Quem tem acesso à internet conhece muito bem todas as vantagens que a rede pode proporcionar. Mas como o uso intensivo se transforma em um problema de saúde?

Por Vagner Apinhanesi

E-mails, sites de relacionamento, compras on-line, serviços bancários, música, vídeos, jogos, pesquisas acadêmicas e profissionais, notícias do mundo inteiro... Quem tem acesso à internet conhece muito bem todas as vantagens, facilidades e benefícios que a rede internacional de computadores pode proporcionar.

Se para as pessoas que já passaram dos 30 anos de idade foi fácil se acostumar com essa modernidade, imagina para quem já nasceu com a conectividade sendo uma realidade cada vez mais necessária e presente?

A Geração Digital, denominação utilizada por alguns pesquisadores europeus para identificar os jovens nascidos entre os anos de 1990 e 2000, já tem a perspectiva da conexão como elemento comum em suas vidas. Muitos desses jovens praticamente aprenderam a escrever no teclado de um computador. E o que isso tem de errado? Provavelmente nada, mas como já alerta a sabedoria popular, tudo o que é em excesso pode fazer mal. E o excesso, neste caso, pode significar dependência de Internet e jogos digitais.

Uma pesquisa recente de uma consultoria americana fez um levantamento sobre o número de pessoas inscritas de alguma maneira nos sites de jogos, e os números apontaram para 600 milhões de indivíduos em todo o mundo. Dessa população, 60% seriam jovens adolescentes entre 10 e 15 anos.

“Com o aparecimento da Internet, uma série de aplicativos começou a ficar disponível para os adolescentes, o que antes não havia com tanta intensidade. Existiam jogos talvez mediados pelo computador, que muitas vezes já vinham com os próprios programas.

“Com esses jogos disponíveis on-line, inclusive multiusuários, houve uma verdadeira explosão no que diz respeito ao número de pessoas participantes”, explica o Dr. Cristiano Nabuco de Abreu, coordenador do grupo de dependentes de internet do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti), do Instituto de Psiquiatria/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Segundo Abreu, esses jogos funcionariam como uma “cola social”, dando aos participantes uma possibilidade de criar identidades, trocar experiências, encontrar seus semelhantes, não pelo fato de participarem do jogo em si, mas porque na maioria deles existe, na parte inferior da tela, a possibilidade de o jogador se comunicar com seu oponente ou com o seu parceiro e isso funcionaria como uma nova forma de congregação.

O que é

A dependência manifesta-se como uma inabilidade do indivíduo de controlar o uso e o envolvimento crescente com a internet e com os assuntos afins, que por sua vez conduzem a uma perda progressiva de controle e aumento do desconforto emocional.

Com efeitos sociais significativamente negativos, os indivíduos que despendem horas excessivas na internet tendem a utilizá-la como meios primários de aliviar a tensão e a depressão, apresentam a perda do sono em consequência do incitamento causado pela estimulação psicológica e a desenvolver problemas em suas relações interpessoais. 

As consequências físicas da dependência da internet são menos perceptíveis se comparadas a outros distúrbios, como, por exemplo, a dependência de álcool e drogas. A dependência de internet é silenciosa. O que se observa do ponto de vista físico é o ganho de peso, muitas vezes alguma inflamação de tendão, mas o impacto maior diz respeito aos fatores emocionais, psicológicos.

“Na medida em que esses indivíduos começam a exercer uma nova identidade através dessa vida virtual, ficariam sistematicamente dependentes dessa caricatura que foi criada no mundo on-line. Isso faria com que essas pessoas fugissem cada vez mais da sua identidade real porque na vida prática não conseguem ter tanta satisfação tal qual desfrutam na vida mediada pelo computador. Muitas vezes, são pessoas com baixa autoestima ou principalmente jovens que ainda não têm maturação cerebral, pois o controle dos estímulos é feito pelo córtex pré-frontal, que não é plenamente desenvolvido antes dos 21 anos de idade. Percebemos que esses jovens ficariam mais vulneráveis a esses tipos de problemas”, explica o coordenador do Amiti.

Critério para identificação do distúrbio

Os indivíduos que ficam dependentes de internet acabam, de uma maneira ou de outra, negligenciando atividades do seu cotidiano. Tanto os jovens quanto os adultos dependentes, inclusive, acabam preferindo participar de atividades mediadas pelo computador a atividades mediadas pela vida real.

Como indícios de dependência de internet, se a pessoa apresentar  pelo menos cinco dos oito critérios descritos abaixo, pode estar sofrendo desse distúrbio:

(1) Preocupação excessiva com a internet;

(2) Necessidade de aumentar o tempo conectado (on-line) para ter a mesma satisfação;

(3) Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet;

(4) Apresentar irritabilidade e/ou depressão;

(5) Quando o uso da internet é restringido, apresenta labilidade emocional (internet como forma de regulação emocional);

(6) Permanecer mais conectado (on-line) do que o programado;

(7) Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo;

(8) Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas conectadas.

“Como exemplo, eu sempre descrevo o caso de um paciente nosso, de 17 anos, que procurou o ambulatório. A mãe, na primeira entrevista, relatou que o filho chegava a permanecer 45 horas conectado e jogando. Pedindo mais informações, ela me disse que o filho não se alimentava e, inclusive, urinava e evacuava na calça. Ele ficava jogando para aumentar o score do personagem, porque quando ele tinha esse score aumentado, conseguia entrar em sites de venda e negociar o personagem”, narra o Dr. Abreu. “Ele cobrava R$ 500 por esse personagem e, jovens e adultos que teriam baixa autoestima, que se sentiriam desprovidos de habilidades sociais e que podiam pagar por isso, desfrutavam no jogo de um status que eles não teriam na vida real. Esse adolescente, inclusive, fala pra mim que talvez conseguisse ganhar até mais do que eu. Veja, então, que estamos lidando com aspectos econômicos também, e não apenas psicológicos, familiares ou sociais”.

Como evitar

Pelo fato de a internet, hoje, ser integrante das prioridades e necessidades do indivíduo, quando os pais precisam tomar alguma providência, fica difícil discernir efetivamente qual é o limite entre uso saudável, do ponto de vista social, e uso abusivo.

“Todo mundo usa a internet, os jovens possuem blogs, se conectam. Então, a recomendação que nós damos em relação à internet é que, embora ela cumpra também muitas vezes uma função acadêmica e/ou recreativa, os pais tentem regular ou propor uma regulação, um controle desse uso. Para se ter uma ideia, Bill Gates, que dispensa qualquer explicação, não permite que seus filhos fiquem mais do que duas horas por dia na Internet. Então, nós sugerimos que a Internet cumpra uma função social saudável na vida do indivíduo”, recomenda o Dr. Abreu.

Da mesma maneira que ninguém fica oito horas treinando em uma academia, que ninguém fica se alimentando por oito horas seguidas, um indivíduo também não vai passar todo esse tempo conectado à internet.

“A ideia é que a internet fique alocada dentro dessa perspectiva, ou seja, as pessoas podem usá-la, desde que ela não comece a ocupar o lugar de suas experiências reais. Muitas vezes nós recebemos pais e pacientes justamente com essa questão, ou seja, o que seria saudável? É uma interface pantanosa, porque muitos pais não conseguem ter essa noção. Eles acreditam que, uma vez ausentes, devido ao trabalho ou a outras atividades, é preferível que os filhos fiquem na internet, porque seria ‘mais seguro’ do que na rua, tendo experiências concretas”, alerta o Dr. Cristiano Nabuco de Abreu.

De acordo com o coordenador do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, algumas empresas que fabricam antivírus para computador já disponibilizam gratuitamente ferramentas de controle parental. São mecanismos que rastreiam a utilização do computador, sem invadir a privacidade do adolescente ou do usuário, mas que indicam por quantas horas o computador foi usado, os sites visitados etc. Em tese, essas ferramentas permitiriam que os pais, ao observarem o uso abusivo, tivessem uma conversa com os filhos para saber o que está acontecendo de errado.

“Hoje, já é possível encontrar tratamento em Porto Alegre, no Hospital das Clínicas de São Paulo, na PUC-SP e na Santa Casa do Rio de Janeiro. O que nós vemos com bons olhos é que essa perspectiva está sendo alertada junto à população e, principalmente, aos profissionais de saúde, na medida que começam a perceber a necessidade de oferecer um tratamento, visto que em alguns países asiáticos esse problema já é considerado de saúde pública”, finaliza Dr. Abreu.

Para saber mais sobre a dependência de Internet e buscar informações sobre tratamento, acesse o site www.dependenciadeinternet.com.br.


Sal, saúde e doença
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