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Educação para a sensatez

Educação para a sensatez

A insensatez vem à tona quando há uma quebra na nossa visão de alteridade, isto é, na capacidade de perceber o outro como um outro e não como um estranho.

Mario Sergio Cortella

Uma das obras mais importantes para compreendermos os caminhos tortuosos e os desatinos que eventualmente as ações governamentais e manifestações sociais podem adquirir é um estudo da historiadora norte-americana (duas vezes vencedora do Prêmio Pulitzer de Literatura) Barbara W. Tuchman, chamado A Marcha da Insensatez. Nele, a autora percorre a história para identificar inúmeras situações nas quais os governantes, em diferentes nações e continentes, tomaram decisões e assumiram posturas contrárias ao que seria sensato.

Essa pesquisa tem uma epígrafe extraída do livro clássico As Máscaras de Deus: Mitologia Primitiva, de Joseph Campbell. Ei-la, resumida: “Não vejo razão alguma que possa induzir alguém a supor que, no futuro, os mesmos argumentos já escutados não venham a ressoar ainda (...) trazidos à luz por homens sensatos para fins sensatos, ou por criaturas ensandecidas visando ao absurdo e ao desastre”.

Ante os desnorteantes fatos presenciados pelo mundo nos turbulentos dias que se passam, é preciso que o educador tenha muita sapiência (e paciência) ao debater o assunto em sala de aula.

Essa cautela busca não favorecer o alastramento da compreensão ingênua e simplória sobre a identificação e incriminação dos responsáveis pelo terrorismo em suas variadas manifestações. Ao mesmo tempo, necessita evitar a interpretação indigente precária sobre as intenções hegemônicas. Basta observar como foi fácil (passados os primeiros instantes de estupefação, logo após os atentados de 11 de setembro) eleger rapidamente pessoas para serem os verdadeiros, exclusivos e únicos responsáveis.

Assim, juntaram-se às vítimas do terrorismo direto também aquelas que foram (e ainda são) levianamente tachadas como cúmplices, simpatizantes ou protetoras dos autores. Enquanto as investigações foram sendo apuradas e os mecanismos de autodefesa levantados, muitas dessas pessoas tornaram-se vítimas do desejo de desforra cega, ficando soterradas por injúrias, preconceitos e acusações genéricas.

A insensatez vem à tona em circunstâncias como essas. Há uma quebra na nossa visão de alteridade, isto é, na capacidade de perceber o outro como um outro e não como um estranho.

Vai por terra, desse modo, a compreensão do que significa antropodiversidade, a diversidade humana como riqueza e parte da imprescindível biodiversidade. Passa-se a entender as diferenças cultural, étnica e religiosa como sendo defeito. Ora, a diferença é um elemento basilar para a pluralidade humana, e a multiculturalidade é uma grande resposta à nossa capacidade de inovar, modificar, reinventar.

Porém, o reconhecimento das diferenças não pode conduzir à exaltação da desigualdade, dado que a igualdade é conceito ético, relativo à dignidade coletiva; por isso, homens e mulheres, ocidentais e orientais, brancos e negros, brasileiros e árabes - somos todos diferentes, nunca desiguais.

Compreender é diferente de aceitar; mas aceitar ou rejeitar antes de ter compreendido é puro preconceito, e a isso a escola não pode dar guarida.