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Ciúme patológico e sua relação com o alcoolismo

Ciúme patológico e sua relação com o alcoolismo

Nos últimos anos, pesquisas têm apontado que o abuso e a dependência ao álcool contribuem para desencadear esta doença

Adriana Moraes

No ciúme patológico a dependência afetiva, e no alcoolismo a dependência química. Ambos trazem muito sofrimento.

O ciúme torna-se doentio quando quem o sente passa a ver em tudo e em todos uma ameaça ao relacionamento, perdendo a noção da realidade e tirando a liberdade do outro, apresentando sentimentos de inferioridade, insegurança e possessividade.

Em sua ampla e profunda complexidade, o ciúme tem em sua formulação uma alta dose de medo. Entre esses, medos da perda, da traição, da competição, do outro, de si mesmo. Alguns especialistas acreditam que o ciúme que atormenta os adultos tem raízes na infância. Desde o início da vida psíquica, o indivíduo sente necessidade de ser reconhecido, receber atenção, sentir-se incluído e amado.

Para entender o que ocorre na mente do ciumento, é necessário compreender o que aconteceu no seu passado, uma busca à procura de detalhes que ficaram na memória inconsciente e que hoje se apresentam de uma forma distorcida. O ciumento expressa o desejo de controlar e possuir unicamente para si a pessoa que se quer bem. Nasce uma demanda de exclusividade do desejo de ser tudo para alguém, da situação de não suportar dividir a atenção da pessoa amada com mais ninguém.

Quando uma pessoa aceita o sentimento de ódio, inerente ao ciúme, podemos dizer que está doente. Afinal, está vivendo para alimentar fantasias de vingança, aceitando trocar chumbo, desprezando pessoas, atropelando o sentimento dos outros, desconfiando de quem nunca deu motivos e, principalmente, cultivando esses sentimentos e comportamentos mesmo quando não está com ninguém.

Ciúme doentio no local de trabalho

Muitas vezes a pessoa que sofre com o ciúme excessivo parece normal, mas está distante da realidade em que vive e perdeu o autocontrole de suas emoções. Se seu gestor dá uma atenção ou mesmo parabeniza sua colega de trabalho, a pessoa ciumenta sofre com isso. Gostaria de ser a única parabenizada, sente raiva da outra e acredita que consumindo álcool vai aliviar um pouco o seu martírio.

Em sua imaginação, a amiga se transformou em sua rival e sente vontade de prejudicá-la. Acredita que seu chefe gosta mais de sua amiga e que até tenham um relacionamento fora do local de trabalho. É tanto sofrimento e uma busca intensa por provas, que ela vai se sentindo cada vez mais angustiada. Passa horas investigando a vida dos dois, em busca de evidências ou mesmo pistas que confirmem o suposto caso. A pessoa ciumenta não suporta a satisfação do outro, sente-se a todo instante rejeitada.

O ciumento distorce tanto a realidade, confia tanto em suas fantasias, que acaba criando uma série de comportamentos que comprovem, dia a dia, para ele mesmo, a teoria de que está sendo jogado para fora do relacionamento.

O que mata o ciumento é a dúvida. Ele vive atrás de detalhes, um simples vestido novo de sua amiga já é um gatilho para o seu ciúme, imagina que sairão no final do turno, ou que sua
rival vai receber elogios. Seu dia se torna um tormento, a angústia e o copo de álcool são suas companhias, tudo isso atrapalha seu comprometimento com o trabalho. Como se
concentrar se passa o tempo investigando a vida dos dois?

O ciumento sempre desconfia da outra pessoa. Por isso, jamais acredita nela, mesmo que esta consiga provar que suas suspeitas são fantasiosas e infundadas.

Faz questão de dizer a todos que ama seu gestor, mas não percebe que o sufoca e não compreende que ele é apenas seu chefe, e devido a seu problema com o alcoolismo, poderá afastá-la para se tratar (um direito do trabalhador assegurado pelo INSS - Instituto Nacional do Seguro Social), colocando outra(o) profissional em seu lugar até estar em condições de retornar ao trabalho.

Na matéria do site Agência Brasil, “Alcoolismo é a principal causa de afastamento por transtorno mental”, o texto revelou que o número de pessoas que precisaram parar de trabalhar e pediram o auxílio devido ao consumo excessivo do álcool passou de 12.055, em 2009, para 14.420, em 2013. A matéria informou ainda que São Paulo obteve o maior número de pedidos em 2013 por consumo abusivo do álcool, com 4.375 auxílios-doença concedidos, seguido de Minas Gerais, com 2.333.

Síndrome de Dependência de Álcool

 A Síndrome de Dependência de Álcool (SDA) é uma condição clínica caracterizada por sinais e sintomas comportamentais, fisiológicos e cognitivos, na qual o uso de álcool alcança uma grande prioridade na vida do indivíduo, tendo as demais atividades um plano secundário.

O álcool é uma droga lícita (permitida por lei, comercializada de forma legal, exceto para os menores de 18 anos). A dependência do álcool está inserida na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), item F 10 (transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool) no grupo de transtornos decorrentes do uso de substância psicoativa.

O consumo de álcool induz à tolerância (necessidade de quantidades progressivamente maiores da substância para produzir o mesmo efeito desejado) e síndrome de abstinência (sintomas desagradáveis que ocorrem com a redução ou com a interrupção do uso da substância).

Mulheres e o consumo de álcool

O consumo de substâncias psicoativas entre mulheres é um problema crescente na área da saúde pública. Nas últimas décadas, as taxas de prevalência de consumo de álcool, tabaco e outras drogas têm aumentado de forma considerável nesse grupo.

O dr. Claudio Jerônimo da Silva, psiquiatra da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), explicou que:

“As mulheres ficam mais suscetíveis aos efeitos do álcool exatamente porque, fisiologicamente, têm mais gordura retida no organismo, o que acaba por repelir a absorção do álcool pelas células, fazendo com que ele permaneça por mais tempo na corrente sanguínea, o que chamamos de biodisponibilidade do álcool. Isso faz com que seus órgãos passem mais tempo expostos aos seus efeitos nocivos, principalmente os mais sensíveis, como cérebro, fígado e coração”.

No cérebro, o álcool afeta o sistema nervoso central e pode causar perda de reflexo, problemas de atenção, perda de memória, sonolência e coma, que pode levar à morte. No fígado, altera a produção de enzimas, mudando o ritmo do metabolismo do álcool consumido, ocasionando inflamação crônica, hepatite alcoólica e cirrose. No coração, o álcool libera adrenalina, que acelera a atividade do sangue, aumentando a frequência dos batimentos cardíacos.

Pesquisa realizada pelo II Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) entrevistou 4.607 pessoas em 149 municípios em todas as regiões do País.  O estudo mostrou o aumento do consumo abusivo de álcool entre as mulheres, especialmente entre as mais jovens.

O levantamento também revelou que 8% dos entrevistados admitem que o uso de álcool já teve efeito prejudicial no seu trabalho; 4,9% dos bebedores já perderam o emprego devido ao consumo de álcool; 9% admitem que o uso de álcool já teve efeito prejudicial na sua família e no relacionamento.

O ciúme patológico pode coexistir com qualquer diagnóstico psiquiátrico. No entanto, nos últimos anos tem havido crescente interesse nos aspectos forenses dessa patologia ligados ao uso, abuso e dependência de álcool, uma vez que muitos deles resultam em violência grave. Em pacientes dependentes de álcool, a prevalência do ciúme patológico pode estar em cerca de 27% a 34%.

Um estudo realizado nos Estados Unidos pela Universidade de Houston mostrou que pessoas ciumentas tendem a abusar de bebidas alcoólicas com mais facilidade. De acordo com os pesquisadores, pessoas dependentes de um relacionamento amoroso e que imaginam ser vítimas de traição apresentam maior risco de recorrer ao álcool como forma de aliviar seus problemas.

Foram entrevistadas 277 pessoas, sendo 87% mulheres. Os resultados mostraram que as pessoas que dependem de um relacionamento para a autoestima tendem a beber por causa do ciúme que sentem.

Vimos nesse texto que o ciúme patológico é uma perturbação total, um transtorno afetivo gravíssimo, que pode levar a outro problema grave, o alcoolismo. Finalizo, alertando que é consenso entre os especialistas que não existe consumo de álcool isento de riscos.


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