O desafio de introduzir tarefas domésticas na vida das crianças

O desafio de introduzir tarefas domésticas na vida das crianças

Dividir as tarefas com os filhos não só ensina atividades úteis, mas também contribui para o desenvolvimento dos pequenos

Por Fernanda Maranha

Quando as crianças vão crescendo, são vários os hábitos que precisamos ensinar e incluir na rotina dos pequenos, entre eles estão as tarefas domésticas.

Pode ser um desafio para os pais incluir pouco a pouco as atividades na rotina da criança e fazer com que ela aprenda a executar as tarefas, desde as mais simples – como guardar os próprios brinquedos – até as mais complexas, como ajudar a lavar o banheiro, por exemplo.

A primeira dúvida que pode surgir na família é sobre qual é a melhor forma de ensinar aos pequenos algumas tarefas domésticas e com que idade isso deve acontecer. “Com dois anos a criança já possui coordenação motora o suficiente para ajudar, por exemplo, a guardar seus próprios brinquedos”, explica a psicopedagoga Cynthia Wood sobre o início do ensino das atividades domésticas.

A psicóloga Gabriela Malzyner salienta que, além da idade, é importante também observar a capacidade física e intelectual da criança para saber o quanto se pode demandar dela.

“O exemplo é sempre a melhor forma de construir habilidades”,  diz a psicóloga. Cynthia complementa: “Se o pai ou mãe mostrar dando seu exemplo, a criança vai imitar. Se na hora de cozinhar, eles mostrarem como é prazeroso preparar a refeição para a família e colocarem a criança para ajudar – desde a misturar a massa de um bolo ou torta, até a lavar e picar as folhas da salada –, a criança vai contribuir e se interessar”.

Vanessa Coronado, assistente técnico-administrativo, é mãe de Felipe, de oito anos. Ela conta que o filho que se interessou em começar a ajudar nas tarefas domésticas: “Quando estamos fazendo as coisas, ele pede pra ajudar. Então deixamos ele enxugar louças, lavar algumas peças de roupa, e ele tem uma vassourinha que usa também para ajudar a limpar a casa”.

Vanessa conta que a adaptação das atividades de casa para o filho único foi muito tranquila. No dia a dia ela passou a explicar para Felipe que ele podia fazer algumas tarefas simples e se responsabilizar pela organização das próprias coisas.

Gabriela Zanforlin, assistente financeiro, tem duas filhas: Júlia, de nove anos, e Sofia, de cinco. Ela conta que a mais velha também se interessa pelas tarefas domésticas e pede para ajudar: “Ela não tem nenhuma obrigação pré-definida. Quando eu vou limpar a casa, a gente combina alguma coisa para ela me ajudar”.

Júlia, a filha mais velha, começou a ajudar nas atividades durante as faxinas. Enquanto a mãe Gabriela tirava os enfeites do lugar para limpar, a filha colocava tudo de volta nos móveis. Hoje ela já lava os tênis e tira o pó de alguns móveis no dia da faxina. Também passou a pedir para lavar o banheiro da casa. “Foi ela quem insistiu em fazer coisas mais pesadas”, garante a mãe das crianças. Outra tarefa combinada entre mãe e filhas na casa da família Zanforlin são os cuidados com o cachorro. Segundo a mãe Gabriela, o animal chegou à família depois de pedido das filhas, mas com uma condição: as crianças teriam de ajudar a cuidar do animal. Ela conta que as pequenas estão cumprindo o combinado. Sempre que ela está ocupada, pede às filhas tarefas simples, como tirar o cocô e trocar a água do cão.

Caso as crianças tenham mais ou menos a mesma idade, é recomendável dividir as tarefas de forma justa entre os irmãos. Para isso, a recomendação de Cynthia é que eles variem as atividades, para não acharem que a do irmão é mais legal ou mais fácil.

Cynthia confirma que entre oito e dez anos é a idade ideal para que as crianças comecem a fazer as tarefas domésticas mais complexas, como varrer ou lavar a louça. “Sempre é recomendada a supervisão de um adulto, pois podem ter peças sensíveis que quebram e a criança pode se cortar, por exemplo”, destaca a psicopedagoga.

 

RESPONSABILIDADES DOS PEQUENOS

Sofia, filha mais nova de Gabriela, ainda não tem ajudado em casa durante a faxina por conta da idade, mas já tem como responsabilidade a organização do próprio quarto, assim como Júlia. A mãe Gabriela explica que os sapatos sempre precisam estar no armário, as roupas sujas no cesto e nada deve ficar esparramado pelo chão. “Quando elas terminam de brincar, elas guardam tudo. Eu não faço nada disso, elas que fazem”, conta.

O pequeno Felipe, de oito anos, também é responsável pela organização do que ele mesmo tira do lugar, como explica Vanessa, sua mãe: “Quando ele chega em casa, deve colocar as coisas dele no lugar. As roupas que ele tirou, ele guarda. Depois que acaba de brincar, é ele quem guarda os brinquedos”, diz.

“Esticar a cama e guardar os brinquedos são alguns exemplos de responsabilidades que podemos passar para as crianças”, salienta a psicopedagoga Cynthia Wood. Segundo ela, é importante que, desde cedo, a criança tenha responsabilidades e pratique o cuidado com suas coisas e seu espaço.

Uma ideia das duas profissionais é apostar no lúdico com os pequenos para inserir atividades simples de organização no cotidiano que sejam divertidas. “Separar os brinquedos por cor e forma em cestos”, sugere Cynthia. “A criança brincando de imitar ao adulto, aos poucos vai tomando consciência do quanto pode ajudar e do quanto aquilo é difícil para todos”, explica a especialista sobre investir nas brincadeiras para ensinar tarefas.

Por outro lado, a psicopedagoga reforça que não é recomendável impor as tarefas, afinal, elas ainda são apenas crianças. Além disso, é preciso ter consciência de que, no começo, as tarefas não vão estar perfeitas, mas se deve reconhecer o esforço e incentivar os pequenos: “Assim, eles também aprendem a não bagunçar tanto, já que percebem o quanto dá trabalho organizar”, diz.

 

APRENDIZADO EM FAMÍLIA

Dividir as tarefas domésticas com os filhos não só ensina as crianças a executar atividades úteis para cuidar de uma casa no futuro, mas também contribui para o desenvolvimento dos pequenos. “A criança se sente útil quando divide tarefas com os pais e, se recebe elogios, sente-se valorizada”, explica a psicopedagoga Cynthia. “O importante é aprender a dividir as tarefas com os outros membros da casa, ter autonomia e responsabilidade”, completa.

Outra vantagem de as crianças participarem da divisão das tarefas de casa é fortalecer o vínculo com os pais, enquanto passam mais tempo juntos. A especialista dá um exemplo de atividade compartilhada: “A criança pode ajudar a mãe que está tirando a roupa do varal a dobrar as roupas e colocar no cesto enquanto vão cantando uma música ou conversando sobre o seu dia”.

A mãe de duas meninas, Gabriela, tenta, com a divisão de tarefas, passar sua visão para a família: “Digo que não sou empregada de ninguém e nós moramos todos juntos, então a regra aqui de casa é essa: a gente vai se ajudando, e todo mundo fica contente”.