Vegetarianismo na infância: uma opção saudável?

Vegetarianismo na infância: uma opção saudável?

Para criar seu filho com uma alimentação vegetariana, deve-se seguir algumas orientações.

Por Fernanda Maranha

O vegetarianismo consiste em uma dieta que tem como base alimentos de origem vegetal, como frutas, legumes, verduras e grãos. Entre os vegetarianos existem alguns subgrupos. Os principais são: ovolactovegetarianos –  aqueles que, além de vegetais, comem ovo, leite e seus derivados –, vegetarianos estritos – que não se alimentam de nada de origem animal – e, por fim, os veganos, que seguem um estilo de vida diferente, não consumindo nada que seja de origem animal, seja na alimentação, nas roupas, em cosméticos, entre outros.

De acordo com pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2012, 8% da população brasileira era vegetariana. Estima-se que este número tenha crescido, acompanhando o mercado, que aumentou nos últimos anos. Isso é comprovado por um um levantamento do Ibope pedido pela Sociedade Vegetariana Brasileira e divulgado em maio deste ano. Segundo o estudo, 14% dos brasileiros com mais de 16 anos – cerca de 22 milhões de pessoas – se declaram vegetarianos.

Há famílias que seguem alguma linha da dieta vegetariana e, ao terem filhos, iniciam os pequenos na mesma dieta, sem incluir itens de origem animal. Com isso, surge a dúvida em muitos pais: o vegetarianismo é uma dieta saudável e adequada para crianças?

Crianças vegetarianas

Davi Boarato, fotógrafo e videógrafo, é vegetariano há cerca de 18 anos e sua esposa também segue a mesma dieta. “Em casa somos mais veganos, mas na rua abrimos exceções para itens com ovo e leite, por exemplo, porque é mais difícil achar opções em todos os lugares”, conta Davi. Ao se tornarem pais, foi natural a decisão dos dois de manter a mesma dieta para os filhos. “A gente acredita que essa alimentação faz bem para nós e, consequentemente, também vai fazer bem para eles”, declara o fotógrafo.

Davi é pai de Maria, de cinco anos, que segue uma dieta vegetariana desde o nascimento e nunca comeu carne, e do pequeno Luís, que tem apenas quatro meses e, portanto, se alimenta apenas de leite materno. Sobre sua filha mais velha, o fotógrafo conta que desde a introdução alimentar, no sexto mês de vida, a menina come de forma variada os itens de origem vegetal, assim como a família.

Quando escolhem quais alimentos vão dar de comer à filha, Davi revela que ele e a esposa não pensam em substituições, mas sim no que eles têm vontade de comer. Ele conta ainda que a filha nunca demonstrou vontade de comer carne e que ela já entende que sua família segue uma alimentação alternativa às outras.

Diferentemente da pequena Maria, que já nasceu em uma família vegetariana, existem crianças que diminuem o consumo de carne naturalmente, conforme se desenvolvem. É o caso da Victória, de seis anos, que há cerca de um ano parou de comer qualquer tipo de carne – exceto peixe. Segundo Mirian Chaves, mãe de Victória, a escolha veio por vontade própria, quando a menina fez a associação de que boa parte dos alimentos que ela ingeria tinha origem animal.

“Ela tinha cinco anos e, no Dia do Índio, a professora ensinou sobre os costumes dos índios e citou que eles caçavam animais para se alimentar. Foi quando ela entendeu que nós comíamos animais”, conta Mirian Chaves, mãe de Victória e profissional de educação física. Neste dia, Victória chegou em casa e perguntou à mãe: “O que a gente come é bichinho?”. Mirian explicou que sim, eram animais, e a resposta da filha a surpreendeu: “Então eu não quero mais comer”.

A mãe, que sempre prezou por uma alimentação saudável para ela e a filha, explicou as necessidades do corpo e deixou a filha livre para não comer carnes. “A minha preocupação é que ela coma proteína, então quase todos os dias faço ovo ou peixe nas refeições. E ela adora quinoa e folhas verdes-escuras”, explica Mirian que, por esses motivos, acaba ficando mais tranquila com a alimentação da filha. Ainda sobre as preferências alimentares da pequena Victória, a profissional de educação física tenta fazer com que ela sempre coma feijão nas refeições, que é rico em ferro e em proteína.

Dieta saudável

O nutrólogo Alexander Gomes de Azevedo garante que as dietas vegetarianas são saudáveis, mas afirma que é preciso observar muito bem a criança e a alimentação dela para que não haja consequências negativas para a saúde.

Se um pai deseja criar seu filho com uma alimentação vegetariana, ou se a própria criança teve esse desejo quando pequena, a orientação de Alexander é fazer exames de sangue semestralmente. “Dependendo do resultado, é preciso fazer uma suplementação alimentar, mas isso deve ser considerado apenas após consultas com pediatra e nutrólogo”, completa.

Os micronutrientes que podem estar em falta no organismo das crianças que não comem carne e itens de origem animal, segundo Alexander, são: ferro, vitamina B12, cálcio e ácidos fólicos. “As crianças já têm uma chance maior de ter deficiência de ferro e serem anêmicas. Quando não comem carne, a chance é muito maior”, explica o nutrólogo.

O especialista recomenda aos pais que se preocupem em garantir alimentos com boa concentração de ferro na nutrição dos filhos desde o início da introdução alimentar, mas também alerta que, em alguns casos, apenas isso pode não ser suficiente. “Apesar de serem indicadas, as verduras não contêm ferro em quantidade muito grande. O ferro está mais presente na proteína da carne”, esclarece o nutrólogo que alerta: “Se a criança tem anemia nos primeiros cinco anos de vida, isso pode interferir na imunidade dela e até gerar déficits cognitivos permanentes”. Por isso, é sempre importante fazer um acompanhamento médico.

Alexander revela que, ao se alimentar de ovos e leite, os ovolactovegetarianos já têm menos chances de ter deficiência de micronutrientes. No caso de Victória, que além de ovos e leite também consome peixes, a situação ainda é mais segura. “Os peixes são uma fonte de nutrientes ótima, pois têm ômega 3 e proteínas excelentes”, revela Alexander.

Já no caso da família do fotógrafo Davi, em que todos são vegetarianos, o pai conta que a família inteira faz exames de sangue frequentemente, e as vitaminas sempre estiveram nos níveis corretos. A única suplementação que Davi, sua esposa e sua filha mais velha fazem é da vitamina B12. Como o mais novo ainda consome leite materno, ele adquire os nutrientes por meio da mãe e não precisa de suplementação.

A vitamina B12 é produzida por bactérias e apenas os animais conseguem armazená-la, portanto, é o único nutriente que não é possível obter por meio de vegetais, mas apenas ingerindo alimentos de origem animal.

Aspecto social

O reflexo social de ter uma alimentação considerada diferente pela maioria da sociedade pode afetar os pequenos. Davi conta que não enfrentou muita resistência de conhecidos, já que sua família também é, em boa parte, vegetariana. Mas o fotógrafo conta que, durante a gravidez de sua esposa, mesmo com os exames sempre indicando bons resultados, era comum ouvir de terceiros frases de preocupação em relação à saúde dela.

Já Mirian conta que Vitória enfrenta certo bullying na escola por levar alimentos mais saudáveis de lanche, como quinoa, milho e cenoura. As coleguinhas da escola falam que a comida de Victória é estranha e tem gosto de terra. Recentemente, as críticas têm incomodado a filha. Mirian se empenha em explicar para ela que as pessoas têm hábitos e escolhas alimentares diferentes e que o importante é respeitar a opção de cada um.


Sobre a inocência
Comportamento

Sobre a inocência

A palavra “inocência” veio do verbo latino nocere, “machucar”. O “inocente” é o que “não machuca” ninguém, não importa a pressão ou a situação.