Escola de Educação Infantil Raio de Luz
Pais Atentos
Entrevista com Mauricio de Sousa

Entrevista com Mauricio de Sousa

Descubra um pouco mais sobre quem é Mauricio de Sousa nesta entrevista exclusiva

Mauricio de Sousa é uma figura praticamente onipresente na vida de todos os brasileiros. Há mais de três gerações, sua maior criação, a Turma da Mônica, vem ajudando crianças a ler suas primeiras palavras e a entender que o mundo pode ser bem mais divertido do que parece.

Para muitos, a figura deste homem que criou centenas de personagens é cercada de curiosidade. O que pensa o Mauricio pai que está por trás do Mauricio artista? Quais são seus sonhos e aonde ele ainda quer chegar? No auge dos seus 82 anos, tivemos a oportunidade de entrevistá-lo dentro da Mauricio de Sousa Produções, um imponente prédio de 3.200 metros quadrados que abriga mais de trezentos funcionários e parece ter saído de dentro dos sonhos de todas as crianças fãs da Turma da Mônica. Aqui, você vai descobrir um pouco mais sobre quem verdadeiramente é Mauricio de Sousa.

 

Mais de cinquenta anos produzindo quadrinhos e ainda nessa profissão. Qual o segredo para manter a criatividade e continuar apaixonado pelo seu trabalho depois de tanto tempo?

O trabalho de quadrinista, e dos artistas de forma geral, não tem fim e não deve ter. A gente acha que sempre pode fazer melhor e criar coisas que superem as anteriores. Você sempre acha que pode melhorar a mensagem que está passando. Não tem fim, não tem aposentadoria, não tem tempo de validade. É um trabalho sem fim, ainda bem! Porque se não fosse, eu estaria meio preocupado de não poder estar mais aqui nessa profissão.

Nosso estúdio vai fazer sessenta anos em 2019. Todos os anos fazemos uma festa de comemoração e, neste ano em especial, vamos premiar alguns funcionários que vão fazer cinquenta anos de casa. Aqui ninguém sai cedo. As pessoas só nos deixam quando a idade as obriga, quando chega a hora de descansar um pouco. E para esses funcionários que nos deixaram depois de tanto tempo nós damos uma ajuda de custo para ninguém ficar desamparado, sem remédio ou sem comida.

Não é que somos “bonzinhos”, mas sim que isso faz parte da natureza do nosso trabalho. Lidamos todos os dias com histórias, e isso nos permite ter essas ações de uma maneira sincera, sem nenhum tipo de demagogia. Nós sempre tivemos um cuidado especial com o ser humano que trabalha conosco. Isso está na nossa essência.

Além disso – alguns até dizem que é um pouco de esperteza minha –, eu não quero perder talentos que ajudei a formar. Então dizem que eu faço essas coisas para segurar as pessoas aqui dentro. Mas a verdade é que as pessoas têm liberdade. Quando a pessoa quer, ela sai de qualquer jeito.

Quem anda pelo nosso estúdio sente que o ambiente aqui é diferente. Dá vontade de trabalhar aqui dentro. E não é porque não tem bronca de vez em quando. Isso é normal de uma empresa, mas no conjunto as coisas são mais humanas.

Nos velhos tempos, quando eu era mais jovem, eu era meio nervosinho. Eu ficava louco da vida quando chegava para mim um desenho malfeito produzido por um bom desenhista. Aí eu soltava os cachorros mesmo.

Fora isso, naquela época tudo era festa e as coisas eram mais fáceis de certa forma. Eu costumava pegar um avião de repente para visitar meus colegas quadrinistas de Nova Iorque, do Rio de Janeiro. E lá no Rio tem a praia de Copacabana, e você sabe como a coisa é bonita. Nesses contatos eu aprendi muita coisa que me inspirou a escrever histórias e a construir o estúdio como ele é hoje.

 

Quais são seus planos para o futuro? Teve algo no passado que você não pôde colocar em prática e está tentando agora?

Tive um sonho que estou colocando em prática agora que é a internacionalização da Turma da Mônica. Quando comecei, o Brasil era um país muito isolado, quase uma ilha longe do mundo. Exportar era muito difícil e, mesmo se eu quisesse, não ia conseguir. Fazer desenho animado era outra coisa mais difícil ainda, praticamente loucura, porque não havia os materiais corretos nem tecnologia suficiente. Apesar disso, nós fizemos alguns filmes, envolvendo milhares de pessoas no projeto. As produções marcaram época, mas não podíamos manter uma frequência porque era muito caro.

Importação, dificuldades alfandegárias, planos econômicos que quase nos mataram. O Brasil definitivamente é um país para fortes, corajosos e meio ensandecidos. Se você não for um pouco louco, não consegue fazer nada.

Ao mesmo tempo, a nossa atividade é muito prazerosa. Criar histórias e ver as crianças na rua felizes com isso nos anima demais. Acho que somos um dos maiores alfabetizadores do Brasil. Não tem criança que não aprendeu a ler com a Turma da Mônica. Todos os dias recebemos inúmeras mensagens de crianças e adultos falando que aprenderam a ler com os nossos gibis. Isso é lindo, porque abrimos a porta da leitura para essas pessoas. Ler é uma libertação, e sou muito grato por fazer esse trabalho. Tem histórias emocionantes sobre isso. O Sidnei, um amigo meu, conta que em algumas viagens para os rincões do Amazonas, entrando de barco em locais isolados, encontrou algumas escolas indígenas perdidas na selva enfeitadas com cartazes da Turma da Mônica.

Uma outra vez, eu viajei para alguns locais isolados na Bahia. Fui em uma cidade onde tinha um rio com paredões de areia, e havia lá uma turma de crianças indígenas brincando. Fiquei tentado a riscar na areia as personagens para mostrar para eles. E de repente eles vieram e começaram a falar os nomes da Mônica, do Cebolinha e me perguntarem se eu era o Mauricio. Na hora, pensei: “Meu Deus, eles me conhecem!”.

E quando eu viajo para Maresias, na praia, faço a mesma coisa. Costumo desenhar no chão com palitos de sorvete e a criançada fica maluca. É uma alegria. Eu coloco uma soma: alfabetizar um monte de gente, fazer a alegria das crianças e dar emprego para milhares de pessoas. Isso tudo me deixa muito grato.

Trabalhamos com 150 fábricas que licenciam nossos produtos e empregam, pelo menos, 30 mil pessoas. Isso conta muito socialmente, culturalmente e também para me dar mais vontade de continuar. Não dá para parar. Não tem fim. Enquanto continuarmos conduzindo nossa atividade com carinho e objetivos não dá para desanimar ou deixar para depois. Nem mesmo mudar de caminho.

 

É engraçado notar a mudança que a infância passou de anos atrás para agora. Em algumas entrevistas, você até mesmo fala que a infância “encolheu”. Como que a Turma da Mônica se adaptou a essas transformações e por que você acha que a infância mudou tanto?

Com certeza não mudou por minha culpa. Mudou porque tudo muda o tempo inteiro. Ainda mais hoje com os meios de comunicação alcançando lugares de forma cada vez mais rápida.

De qualquer maneira nós temos que nos adaptar aqui dentro também. Principalmente com a caçada às bruxas do politicamente correto que está cada vez mais forte. Temos que ter alguns cuidados com assuntos que até pouco tempo atrás falávamos de um jeito e agora precisam ter um outro enfoque, até porque as redes sociais não perdoam os erros.

Temos de ficar ligados e sentir o que vale a pena mudar radicalmente ou não. As pessoas vivem me perguntando por que não têm homossexuais nas nossas histórias, por exemplo. Bem, a hora que a sociedade aceitar todas as mudanças que estão acontecendo, inclusive no terreno da sexualidade, nós vamos mudar também.

Eu digo para os nossos roteiristas que nossas personagens não podem levantar bandeiras, mas sim devem segurar as bandeiras que estão passando.  

 

A Turma da Mônica agora está inclusive lançando personagens inclusivas, certo?

Exato! E às vezes eu me culpo de não trazer algumas mudanças mais rapidamente para as histórias.

Pouco tempo atrás, as pessoas estavam falando que não tinham personagens negras nas histórias. E realmente faltavam! Quando eu criei esse universo eu estava pensando na minha infância e, infelizmente, na minha infância não tive muito contato com negros. Eu tive apenas um amigo negro que acabou inspirando a criação do Jeremias. Se eu estivesse num conglomerado com mais negros, com certeza teria criado mais.

Agora eu estou reparando meu erro. Criamos uma personagem chamada Milena, que é negra e apresenta traços da cultura afro. Nas graphic novels também estamos mudando. Contratei dois roteiristas negros para que escrevam as histórias do jeito que eles quiserem e acharem necessário.

Nossos produtos também são um outro tópico que costumo receber muitas chamadas das pessoas. Muitos nos acusam de ganhar dinheiro em cima das crianças, mas essa é uma alegação muito injusta. Nós apoiamos as indústrias brasileiras, e tudo que vendemos passa por crivos muito exigentes de órgãos públicos. Nós não aceitamos nunca nenhum produto que não daríamos para nossos próprios filhos. Nós vamos nas fábricas vistoriar sempre as produções. Agora mesmo nós vamos lançar no Japão produtos alimentícios. E isso, de certa forma, é um atestado de qualidade para nós, porque o Japão exige níveis de qualidade altíssimos.

 

Ainda nessa questão de reparar os erros do passado, tem algo que ainda está tentando mudar e não conseguiu?

Há anos eu tento colocar a Mônica na escola e não consigo. As personagens são alfabetizadas, mas onde elas estudam que ninguém nunca viu? Cadê a turminha ouvindo o professor, usando uniforme da escola?

Chegamos próximos a isso em um projeto recente, em parceria com o governo japonês, no qual fizemos um gibi educativo para ajudar as crianças brasileiras a se adaptar às escolas japonesas. São 350 mil famílias brasileiras morando no Japão, e muitas das nossas crianças sofrem preconceitos lá, principalmente pela questão linguística.

E por que eu não coloquei a Mônica na escola? Porque eu não achava uma proposta para isso. Existem diversas formas de encarar a educação, e isso está mudando o tempo inteiro. Como criar uma escola universal para a Turminha? No Brasil ainda não temos esse modelo ideal, principalmente porque não temos uma continuidade política dos projetos. Quando muda o dono da casa, muda todo mundo, infelizmente.

Eu não podia colocar a Mônica numa escola que não existe, senão seria fantasia. Estou indo diversas vezes a Brasília debater isso com educadores para achar um caminho e colocar as personagens na escola.

 

Pensando ainda nessa questão da educação e nas atuais crianças leitoras, que tipo de adulto vocês gostariam que elas se formassem para o futuro?

Queremos sempre passar valores de camaradagem, solidariedade, amizade, confiança, esperança e uma dose de otimismo. Tá certo que otimismo depende muito da natureza de cada um, mas, mesmo assim, você pode mostrar coisas na história que podem ser criadas a partir de um pouco de otimismo.

A natureza humana é assim, exige essas coisas. Os valores positivos serão sempre os vencedores, por mais que pareça que as coisas não sejam assim. Como eu sou um otimista, se eu não conseguir que isso perpetue agora, vou conseguir depois. A vida é longa. E mesmo que eu não esteja mais aqui, o legado continua.

 

Todos sabemos que seus filhos inspiraram as personagens das histórias. Mas e os adultos retratados dentro dos quadrinhos? Em quem você se inspirou?

O pai da Mônica é inspirado em mim. Mas a maioria foi simplesmente criada. “Criada” é modo de dizer, porque eu sempre invento uma história e uma personagem achando que era algo único. Aí, aos poucos, eu percebo que todos os traços foram inspirados em alguém, em algum amigo, primo ou familiar.

É impossível criar qualquer coisa sem ter referências. Nada se cria. Tudo vem da vida e da vivência. Eu fico sempre fazendo essa reflexão, buscando achar onde foi o estopim que me fez criar determinada coisa.

Tem até uma história engraçada sobre essa questão. Uma vez, muitos anos atrás, eu precisava escrever uma historinha de treze página que ia sair no jornal do dia seguinte. Eu tinha que escrever e desenhar ao mesmo tempo, porque não tinha tempo hábil para nenhum outro planejamento. Só que durante todo o dia a ideia não veio, e eu comecei a ficar desesperado. Aí saí do estúdio, que na época era na sede da Folha de S.Paulo, andei na rua, comprei pipoca, fui ao cinema, vi um filme em que nem prestei atenção e espaireci. Quando voltei para o estúdio comecei a fazer a historinha. Comecei às 23h e terminei às 5h da manhã. Quando parei para contar, tinha ali exatamente treze páginas e pensei: “Meu Deus, deu certo! Eu não acredito nisso!”. Era uma historinha chamada Os Azuis, que virou antológica ao longo dos anos. A história parecia ter saído do nada, mas foi fruto de todas as vivências daquele dia.

Quando eu conto essas coisas tem gente que diz que eu faço psicografia. Mas eu nem gosto de ouvir isso que fico assustado! Brincadeiras à parte, tudo vem do aprendizado, da técnica, das leituras que você faz e que ficam na sua cabeça.

 

E a relação família e escola? Como você encara isso?

A família não deve ser o elo perdido, mas sim o elo atuante, que está lá do lado da criança. Sem os pais ou a família estando juntos, a criança não tem ânimo nem mesmo para estudar. No Japão, por exemplo, há uma preocupação grande em trazer os pais para a escola e não transformá-la em um depósito para crianças.

E falando nisso, meu filho que mais me levou à escola era o Mauricio, que inspirou o Do Contra. Era porque ele dava muito problema. Ele aprontava porque era muito esperto e inteligente. Vivia questionando as professoras querendo saber o sentido das coisas. Por exemplo, ele chegava na aula de religião e queria explicação para coisas que eram dogmas de fé. Aí me chamavam na escola falando que não estavam conseguindo dar aula de religião com ele dentro da sala.

Outra história legal é que houve uma vez um concurso para criar a bandeira dos jogos de primavera.  Ele fez um desenho lindo e foi escolhido. Só que um tempo depois me chamaram na escola e disseram que o Mauricio estava rebelde porque se recusava a terminar de desenhar a bandeira que fez ele vencer o concurso. Ele então me deu uma explicação que até hoje é muito engraçada: “Pai, eu já fiz a ideia da bandeira. Eles querem que eu faça a arte-final, mas lá no seu estúdio cada um faz uma coisa. Um faz o desenho, o outro a arte-final. Então deixa alguém terminar, poxa”.

 

Mauricio, para finalizarmos, poderia passar para as famílias leitoras um recado final?

Lembrem-se de como vocês eram quando crianças, o que vocês queriam dos seus pais e se cobrem dessa maneira. Todos nos lembramos da infância e dos nossos traumas. Lembrem-se da relação com os pais de vocês, vejam o que sentiam falta e apliquem com seus filhos.