Escola de Educação Infantil Raio de Luz
Pais Atentos
Profissionais dos tempos modernos

Profissionais dos tempos modernos

Há chances de algum deles aparecer em nossa frente. Ou até mesmo, quem sabe, em nosso espelho

Max Gehringer

Meus avós, que Deus os tenha em bom lugar e com vista para o jardim, nunca precisaram se incomodar com um sério questionamento que aflige a geração atual. Não, nada a ver com sexo, que só virou objeto de debate público depois que eles já tinham apitado na curva. É que nunca tiveram de pensar em mudar de emprego. E não que tivessem sido o que se chama de “empregado estável”. Simplesmente, nunca lhes passou pela cabeça a existência da opção pessoal de ir para outra empresa. Mas aqueles eram outros tempos, em que chic mesmo era usar sabão Aristolino para tomar Banho De Sábado (assim mesmo, com maiúsculas, porque, mais que higiene, era um evento). Mas assim é a vida – e ainda bem, senão a gente ainda estaria tomando purgante de óleo de rícino na Sexta-Feira Santa. O mundo mudou, as relações de trabalho mudaram, e para não sofrer de inanição profissional tivemos de aprender a digerir expressões como “estagnação inercial”, “turning point na carreira” e “academicismo paralisante” – o que também não deixa de ser um purgante mental. Qualquer que seja a dose, porém, o efeito será sempre o mesmo: “E agora, mudo ou fico?” É claro que ainda existem pessoas que estão bem onde estão, e não admitem nem discutir a hipótese de uma mudança. Gente assentada, tranquila e, segundo alguns especialistas, muito mal informada. Mas o mais comum é encontrarmos por aí dois tipos de profissional bem mais enquadrados na realidade corporativa de nossos dias, que são: (a) os que já deviam ter saído e não saem e (b) os que deveriam ter ficado, mas saíram. Conhecer um pouco melhor o perfil desse povo talvez seja interessante porque há chances de algum deles aparecer em nossa frente. Ou até mesmo, quem sabe, em nosso espelho. 

1. Amado - o conformado

É, os Amados já viram muita coisa nesta vida. Gente que deu o passo maior do que as pernas. Gente que cuspiu no prato em que comeu. Gente que pulou de galho em galho até um galho arrebentar. Os Amados assimilaram, e ficam ali quietinhos, procurando não chamar muito a atenção e repetindo frases lapidares como “aqui a gente ganha pouco, mas se diverte”. Para os Amados, “carreira” é sinônimo de “imobilidade”.

2. Cardoso - o receoso

De uma coisa, pelo menos, os Cardosos têm certeza: além dos portões da empresa há um mundo desconhecido, em que as condições de sobrevivência são mínimas. Conservá-los empregados, quando há tanto desemprego por aí, é um enorme favor que a empresa está lhes fazendo. Até gostariam de mudar, participam de processos de seleção e, como são competentes, sempre ficam entre os finalistas. Mas, na hora de decidir, o temor fala mais alto: “Por que trocar o certo pelo duvidoso?”

3. Alaor - o sofredor

Os Alaores têm muitas qualidades, mas ninguém percebe esse fato. Jamais recebem um elogio. Nunca são considerados para uma promoção. Nos acertos são ignorados, e nos erros são os primeiros a ser criticados. Por isso, não veem a hora de pedir a conta e ir para algum lugar onde seus inegáveis méritos sejam reconhecidos. Mas nenhuma oportunidade de mudança parece boa o suficiente, e os Alaores gastam o tempo ameaçando: “Quer saber? Na primeira chance, eu...”

4. Tarciso - O indeciso

Os Tarcisos estão sempre na mira dos headhunters. Impressionam muito bem nas entrevistas e, na hora do vamos ver, parece que vão mesmo, mas... Aí pedem um tempinho para refletir melhor, consultar alguém que já passou pela experiência, obter mais informações sobre a nova empresa.

A frase “bater o martelo” faz o Tarciso tremer na base. E então ele decide: não atende telefone até a situação esfriar. 

5. Vicente - o impaciente

Para os Vicentes, o tempo funciona em outra escala: ontem já será tarde demais, e tudo o que ainda está por acontecer já devia ter acontecido. Eles sempre acham que estão ficando “para trás” e abominam a “rotina”, que para eles é fazer a mesma coisa três dias seguidos.

Acreditam que mudar é preciso, por isso mudam sem nenhuma garantia de segurança, apenas para não se torturarem por não terem mudado.

6. Dante - o intolerante

Os Dantes não se cansam de dizer que trabalham nas piores empresas do mundo e que seus chefes são sempre a escória do mercado de trabalho.

Qualquer conselho é uma ofensa pessoal, e qualquer sugestão, uma afronta. Estão sempre falando mal das empresas pelas quais passaram e conhecem muito bem os defeitos da atual, que são todos. E, quando mudam, já se arrependem no primeiro dia.

7. Aparecido - o destemido

Para os Aparecidos, quem não arrisca não petisca. Têm uma preferência especial por mudanças para setores não tradicionais, esses que ninguém ainda entende direito como funcionam. Não hesitam em largar tudo e investir a poupança num site de internet. Deu errado? Não tem problema, eles voltam para uma empresa. Temporariamente, claro, até aparecer outra “oportunidade incrível.”

8. Eugênio - o ingênuo

Os Eugênios não mudam de emprego, são mudados. Aceitam qualquer convite que lhes fazem porque acham que quem os convidou já avaliou todos os fatores que precisam ser considerados nessas horas. Não perguntam nada sobre o cargo, sobre os benefícios ou sobre o ambiente de trabalho, e acreditam em quem lhes diz “isso a gente vê na hora”. Mas os Eugênios são tão bons que acabam se ajeitando no novo emprego, o que não importa muito, porque não sabem como resistir ao próximo convite, qualquer que seja ele.

****

Epílogo

Recentemente, um colega meu, o Antenor, passou por uma dessas avaliações periódicas que as empresas fazem para medir o clima organizacional. O avaliador era um consultor externo, com cinco anos de carreira e sete empregos diferentes (ou, como ele esclareceu, sete “variações curriculares”). Aí o Antenor começou dizendo que já tinha 21 anos de casa e... É mesmo? Por quê? Ué, eu sempre fui feliz aqui. Feliz? Como assim, feliz? E o Antenor teve de explicar que, sim, é possível não ser engolido pela rotina, não deixar o tédio criar raiz, reinventar-se todos os dias, harmonizar a vida profissional com a... Peraí, preciso anotar isso. Você disse “reinventar”? Os Antenores são principalmente isso, reinventores de si mesmos. Vivem cada dia na empresa como se fosse o primeiro. Veem gente chegando e partindo, ou reclamando por ter ficado, e não conseguem entender tanta ansiedade: afinal, quem faz um emprego ser bom ou ruim é o próprio ocupante. Além disso, 21 anos vão passar do mesmo jeito, em qualquer lugar, para quem sabe como vivê-los. Aquela empresa, o Antenor explicou, havia feito o que todas as empresas fazem: ao longo do tempo, criara várias campanhas de marketing interno para mostrar como era diferente das outras.

Um olhar de longo prazo, porém, é o que basta para entender que todas as empresas se assemelham. Aí o consultor pegou a folha de avaliação, olhou longamente pela janela, depois analisou as respostas do Antenor e constatou que, de tudo o que ele dissera, havia um ponto importante que precisava ser esclarecido: “Assemelhar” é com cedilha?