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Provocações filosóficas: sem tempo a perder?

Provocações filosóficas: sem tempo a perder?

Para que ser o fast-food? Ele deveria ser uma opção de alimento, não um sinal de exclusiva qualidade.

Mario Sergio Cortella

Férias! Sonho de vários: aproveitar o tempo livre! Então, vai ao fast-food... Para que serve o fast-food? Ele deveria ser uma opção de alimento, não um sinal de exclusiva qualidade. Parece que muitas crianças são dotadas de um sistema de comunicação de massa que as impulsiona a dizer o tempo todo: “Se você não come lá, você é menos”. Esse é um sistema, mas há um outro, que é a pressão do dia a dia. É mais prático levar as crianças para comer no fast-food porque lá elas não dão tanto trabalho. Além disso, adoram. Sabe porque elas adoram? O que pode lá não pode em casa? Escolher a comida e, atenção, escolhe-se pelo número. Você para, olha e aponta, como qualquer primata não hominídeo faria. A combinação é a mesma; você não precisa raciocinar, já está pronto. É a mesma comida, com o mesmo gosto, em qualquer lugar.

É por isso que as pessoas são capazes de ir a Paris ou Caruaru e, em vez de experimentar o novo e aprender, vão atrás do familiar, procuram aquilo que já conhecem, o que significa uma redundância: ficam onde estavam, no lugar de aumentar a experiência de saborosidade. Porque crianças gostam de restaurante fast-food? Primeiro: Elas podem escolher e não precisam pensar. Segundo: não demora. Terceiro: o que pode fazer lá? Sujar. Pode sujar à vontade, derrubar, fazer o que quiser, não precisa cuidar. Aliás, tudo é descartável.

No restaurante fast-food também pode-se (e deve-se) comer com as mãos. A humanidade passou séculos tentando não comer com a mão, milênios para desenvolver talheres e pratos. Lá você ganha a comida num saco de papel. Quem ganhava a comida num saco de papel até 20 anos atrás era cachorro. E você ainda acha que aquilo é qualidade, porque o saco de papel é colorido e está escrito que ele é reciclado. Você pega a sua comida, que murcha dentro daquele saco – porque fica abafado e com o mesmo cheiro –, tanto faz o que você come, o sabor será o mesmo, mas é reciclável, é natural e ainda por cima não precisa mastigar. Olha que delícia! Em casa você é obrigado a mastigar. No fast-food não precisa porque aquilo é tão mole que você põe na boca e engole.

Vamos ao fast-food para conversar? Não, porque você entra, olha a placa, escolhe, paga, o vendedor entrega a comida em 40 segundos numa bandeja, você pega aquilo e procura um lugar para sentar. Nunca a cadeira e a mesa são compatíveis. Não pode ser confortável porque se for confortável você fica e fast-food não é para ficar e, sim, sair logo, fazendo girar o movimento.

Agora, o ápice da modernidade e da “qualidade de vida”: o drive-thru. A lógica é essa: você entra com o carro, fala com uma máquina, dá uma volta, e quando chega do lado de lá, a pessoa entrega para você um saco de comida, um saco com bebida e você sai comendo, bebendo, guiando e falando ao celular ao mesmo tempo. Ganhando tempo. Tempo para quê? Essa é uma questão. Está ganhando tempo para quê?


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