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Sinal de alerta para o lixo tecnológico

Sinal de alerta para o lixo tecnológico

Nossos hábitos cotidianos estão exigindo da Terra mais do que ela pode suportar

Por André Albert

Nossos hábitos cotidianos, como a produção crescente de equipamentos tecnológicos e o acúmulo de resíduos, estão exigindo da Terra mais do que ela pode suportar.

Em 2016, o Brasil gerou um total de 1,5 milhão de toneladas de lixo eletrônico – que incluem computadores, impressoras, telefones celulares e teve?s. A maior parte desses itens foi parar em lixo?es comuns, contaminando o solo e os lençóis freáticos.

O celular é o ícone da modernidade. Nele, quase tudo pode ser visto, acessado, jogado. Dá até para telefonar! no Brasil, quase todos têm um… que vai ficar obsoleto. E descartado de maneira imprópria, transforma-se em um vilão poluidor.

Teclado

  • Material: Antes, plásticos diversos, silicone emborrachado e prata (contatos). Hoje, mesmo material da carcaça, silicone emborrachado, prata (contatos) ou não existem (touchscreen, tela sensível ao toque).
  • Quem fornece: Idem ao material usado na carcaça, México e Peru (prata) e diversos países (sílica).
  • Efeitos da produção: Os botões com o mesmo material da carcaça encobrem o tradicional teclado de silicone emborrachado. Ou seja: mais material está sendo usado. A tela sensível ao toque dispensa o uso de silicone e plástico, materiais mais difíceis de reutilizar ou reciclar que o vidro.
  • Reciclagem correta: A mistura de materiais faz com que os botões geralmente tenham o mesmo destino da carcaça: derretimento ou incineração para produção de energia. Os contatos, que ficam sob o teclado, são de prata e podem ser recuperados.
  • Falsa reciclagem: Aproveitam-se somente os contatos de prata, mas descarta-se o material restante.
  • Caiu no lixão: Decomposição lenta. Modelos velhos liberam toxinas ao serem queimados.

Carcaça 

  • Material: Antes, alumínio, cromo, PVC e retardantes de fogo à base de bromo. Hoje, alumínio, policarbonatos e antimônio (retardante de fogo). Há experimentos para a produção de polímeros biodegradáveis.
  • Quem fornece: Arábia Saudita e Irã (petróleo, base do PVC e dos policarbonatos), Brasil (alumínio), África do Sul (cromo) e China (antimônio). 
  • Efeitos da produção: A produção de alumínio com base em bauxita, embora seja menos agressiva ao solo, exige um gasto imenso de energia e água. Os plásticos, como o PVC e o policarbonato, são derivados do petróleo, fonte não renovável.
  • Reciclagem correta: O PVC e os policarbonatos podem ser incinerados para gerar energia, desde que com a devida neutralização dos gases tóxicos. Outra opção é derretê-los e transformá-los em plástico reciclado, usado em produtos de menor valor. O alumínio também é facilmente reaproveitado. 
  • Falsa reciclagem: O derretimento de carcaças com retardantes à base de bromo sem tratamento dos gases libera dioxinas. Essas substâncias se espalham pela atmosfera e causam graves problemas de saúde em humanos e animais.
  • Caiu no lixão: Materiais de decomposição lenta, como o PVC, podem ficar mais de 200 anos na natureza e ocupam espaço, por serem rígidos. Em caso de incineração, as carcaças liberam dioxinas. 

Bateria

  • Material: Antes, liga de níquel-cádmio, grafite e potássio. Hoje, íon-lítio (à base de lítio, cobalto e grafite) ou hidreto metálico de níquel (à base de potássio, níquel e grafite). 
  • Quem fornece: Rússia (níquel), Bolívia (lítio), República Democrática do Congo (cobalto), Coreia do Sul (cádmio), China e Brasil (grafite) e Canadá (potássio).
  • Efeitos da produção: O níquel e o cobalto são obtidos da mineração, atividade de alto impacto no solo e de emissão de CO2. As maiores reservas de lítio estão na Bolívia.
  • Reciclagem correta: As baterias possuem cobalto, níquel e ferro, que podem ser reaproveitados.
  • Falsa reciclagem: Se a cartolina e o papelão são facilmente recolhidos para a reciclagem, as embalagens plásticas acabam no lixão. De reciclagem mais cara, elas são menos valorizadas no mercado informal de coleta.
  • Caiu no lixão: O cádmio é um metal pesado e pode contaminar a água e o solo. 

Tela de LCD 

  • Material: Vidro, óxido de índio-estanho ou óxido de zinco e polímero de cristal líquido.
  • Quem fornece: Canadá (índio) e China (zinco e estanho). 
  • Efeitos da produção: O índio é um mineral raro em forma pura, em geral é obtido da extração de outros minérios, como o zinco. Ou seja, além do impacto da mineração, ainda há um grande gasto de energia na eletrólise para separar o minério.
  • Reciclagem correta: O visor de vidro é reaproveitado. Mas a recuperação dos metais especiais, como o índio, ainda é considerada muito cara e ocorre apenas em testes.
  • Falsa reciclagem: Caso o backlight (sistema de iluminação) dos aparelhos antigos seja quebrado, pode haver a liberação de vapor de mercúrio. A quantia é mínima, se comparada a um monitor de TV. 
  • Caiu no lixão: A incineração de uma tela de LCD pode levar à transformação dos polímeros em gases poluentes e cancerígenos. 

Cabos e fios

  • Material: Antes PVC, retardantes de fogo à base de bromo (capa), cobre (fios) e cobre com berílio (conectores para cabos externos). Hoje polietileno e poliamida (capa), antimônio (retardante de chamas) e cobre (fios). 
  • Quem fornece: Chile (cobre) e Brasil (berílio).
  • Efeitos da produção: A mineração do cobre, a céu aberto, devasta grandes áreas. A produção de PVC libera resíduos de cloro altamente poluentes. Como o custo e o desempenho dos materiais alternativos ainda deixam a desejar, a substituição é lenta.
  • Reciclagem correta: O principal ganho é o reaproveitamento do cobre dos fios.
  • Falsa reciclagem: Queimar fios para obter o cobre libera dioxinas e ácido clorídrico. O berílio dos conectores, se inalado, ataca os pulmões. E o antimônio irrita a pele e o sistema digestório.
  • Caiu no lixão: Os efeitos são os mesmos ocorridos com o descarte das carcaças. Fontes: Anatel, Banco Mundial, Nokia, Sony Ericsson, Worldwatch Institute, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Convenção de Basileia - MPPI (Iniciativa de Parceria para Telefones Móveis).

Circuito impresso 

  • Material: Antes, cobre, ouro, prata, paládio, níquel, estanho, bromo, chumbo, mercúrio, plásticos, fibra de vidro, epóxi e cerâmica. Hoje, uso restrito de chumbo e mercúrio ou bismuto, índio e germânio, entre outros. 
  • Quem fornece: China (bismuto), África do Sul (ouro e cromo), Rússia (paládio) e Austrália (chumbo).
  • Efeitos da produção: Metais, como ouro e paládio, são raros. A extração é poluente e pouco produtiva. Para produzir uma tonelada de ouro, são geradas ao menos 10 mil toneladas de CO2.
  • Reciclagem correta Os metais nobres, como ouro e prata, e comuns, como cobre e estanho, são reaproveitados. A base de epóxi é usada como combustível para a caldeira onde os metais são fundidos. 
  • Falsa reciclagem: Na separação do ouro, há a liberação de mercúrio, altamente tóxico. Os resíduos não são tratados e podem contaminar rios, o solo e a atmosfera. Além disso, a desmontagem inadequada pode levar ao desperdício de materiais raros, misturados a outros, mais comuns.
  • Caiu no lixão: Há a contaminação do solo e da água por chumbo e mercúrio liberados das soldas dos equipamentos.