Defender o Indefensável

Defender o Indefensável

O uso indiscriminado do eufemismo é uma má-fé, cuja fonte pode ser qualquer protagonista da arena social

Heródoto Barbeiro

É muito mais nas redações do que nas escolas que se aprende a usar o eufemismo. Ele é a arte de usar palavras gentis e suaves para se comunicar coisas desagradáveis e que possam pesar na opinião pública de forma negativa para o status quo. Quando usado com essa intenção, o eufemismo vai de encontro a uma das maiores criações do ser humano, que é a linguagem. Ela é o instrumento, não importa sobre qual plataforma, que permite ao jornalista divulgar acontecimentos, opiniões, reportagens, comentários, pensamentos e o conhecimento de uma forma geral. Portanto, o uso indiscriminado do eufemismo é uma má-fé, cuja fonte pode ser o jornalista, o político, o partido político ou qualquer outro protagonista da arena social. Pode ir de um ataque aéreo devastador em uma vila do Iraque, chamado de “bombardeio cirúrgico para poupar inocentes”, ou a seca em uma região metropolitana por falta de planejamento, “crise hídrica motivada por péssimas condições pluviais”. Há muitos outros por aí.

O medalhista de ouro na produção de eufemismos é o porta-voz. Seja ele de onde for. Do governo, das empresas privadas ou estatais ou de órgãos públicos. Para seguir essa prestigiosa carreira, com grande exposição na mídia local e global, em alguns países tem nobre título de “ministro”, é preciso treinar sempre. Para cada situação desfavorável, criar eufemismos convincentes que sejam reproduzidos pelos jornalistas por ignorância, má-fé ou por “orientação da casa”. Este também um eufemismo para encobrir a linha editorial do veículo. Assim, danos colaterais servem para descrever o ataque contra uma população civil com a morte de mulheres e crianças. Absenteísmo abaixo dos níveis mínimos de funcionamento, para descrever uma greve de professores com os alunos sem aula nas escolas. Ajuste fiscal para recolher mais impostos, cortar gastos em saúde e educação, diminuir investimentos em infraestrutura. Alongamento do perfil da dívida para comunicar que os cofres públicos foram rapados e não há como pagar os credores que batem na porta do tesouro. E por aí vai.

A lebre, ou melhor, o eufemismo, foi denunciada pelo genial George Orwell: “Em nossa época, o discurso e a escrita política consistem, em grande parte, em defender o indefensável”. Ele ensina que a linguagem política deve ser constituída essencialmente de eufemismos, de pseudobanalidades e de ambiguidades supérfluas. Na época em que viveu, a comunicação era precária, e qualquer um dos lados da Guerra Fria era capaz de bloquear as informações difundidas pela parte contrária. Usavam e abusavam da contrainformação para embaralhar a cabeça das pessoas e confundir a opinião pública. Hoje, com as plataformas digitais, isso é muito mais intenso, eficaz, capilar, compartilhado e de alcance global. Aparece até nas telas dos elevadores comerciais. Nesse novo ambiente, o eufemismo virou celebridade, com amplos espaços com direito a fotos e tudo o mais. Cabe aos que praticam a reflexão desenrolar o nó da linguagem, e para isso podem se valer do livro de BAILLARGEON, N.. Pensamento Crítico, da Elsevier.


Felicidade
Comportamento

Felicidade

Felicidade não é meta: é consequência. É a colheita das ações plantadas ao longo do tempo