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Dengue: quadro clínico e tratamento

Dengue: quadro clínico e tratamento

Identificação precoce dos casos de dengue é de importância crucial para o controle das epidemias

Por Drauzio Varella

Identificação precoce dos casos de dengue é de importância crucial para o controle das epidemias. O vírus da dengue causa um espectro variado de doenças que inclui desde formas inaparentes ou subclínicas, até quadros de hemorragia que podem levar ao choque e ao óbito.

A apresentação clínica da dengue pode ser dividida em três grupos principais:

 

1) Dengue clássica

a) Nos adultos

A primeira manifestação é a febre, geralmente alta (39 a 40 graus), com início abrupto, associada a dor de cabeça, prostração, dores musculares, nas juntas, atrás dos olhos e exantema (vermelhidão no corpo), que pode ser acompanhado de prurido.

Num período de três a sete dias, a temperatura começa a cair e os sintomas geralmente regridem, mas pode persistir um quadro de astenia (fraqueza) durante algumas semanas.

b) Nas crianças

Geralmente, inicia-se com febre alta acompanhada de sintomas inespecíficos: apatia, sonolência, recusa da alimentação, vômitos e diarreia. Manchas na pele podem estar presentes ou não.

Nos menores de 2 anos, as dores podem manifestar-se por choro intermitente, irritabilidade, apatia e recusa de líquidos, o que pode agravar a desidratação.

Nota: É exatamente no final do período febril que eventualmente surgem manifestações hemorrágicas: sangramentos nasal, gengival e vaginal e rompimento dos vasos superficiais da pele (petéquias e hematomas) etc. Em casos mais raros, podem ocorrer sangramentos profusos no aparelho digestivo e nas vias urinárias.

Nas crianças, também as formas graves se manifestam depois do terceiro dia, quando a febre começa a ceder. Nos menores de 5 anos, o início da doença pode ser discreto, passar despercebido, e o quadro grave instalar-se como primeira manifestação reconhecível.

 

2) Febre hemorrágica da dengue (FHD)

As manifestações iniciais são as mesmas da forma clássica, até que ocorra remissão da febre, entre o terceiro e o sétimo dia, quando aparecem as manifestações hemorrágicas (espontâneas ou provocadas), o hemograma mostra que as plaquetas caem para menos de 100 mil/milímetro cúbico e a pressão arterial pode baixar.

 

3) Dengue com complicações

É todo caso que não se enquadra nas duas formas anteriores, dado o potencial de risco evidenciado por uma das seguintes complicações: alterações neurológicas, sintomas cardiorrespiratórios, insuficiência hepática, hemorragia digestiva, derrame pleural, hemograma com glóbulos brancos abaixo de mil e/ou plaquetas abaixo de 50 mil.

As manifestações neurológicas incluem: delírio, sonolência, depressão, coma, irritabilidade extrema, psicose, demência, amnésia, paralisias e sinais de meningite. Geralmente, surgem no final do período febril ou na convalescença.

Os seguintes sinais de alerta indicam a possibilidade de quadros graves:

  • Dores abdominais fortes e contínuas.
  • Vômitos persistentes.
  • Tonturas ao levantar (hipotensão postural).
  • Diferença entre as pressões máxima e mínima menor do que 2 cm Hg (por exemplo: 9 por 7,5 ou 10 por 8,5).
  • Fígado e baço dolorosos. Vômitos hemorrágicos ou presença de sangue nas fezes.
  • Extremidades das mãos e dos pés frias e azuladas.
  • Pulso rápido e fino.
  • Agitação e/ou letargia.
  • Diminuição do volume urinário.
  • Diminuição súbita da temperatura do corpo.
  • Desconforto respiratório.

A dengue é uma doença dinâmica que pode evoluir rapidamente de uma forma para outra. Assim, num quadro de dengue clássica, em dois ou três dias podem surgir sangramentos e sinais de alerta sugestivos de maior gravidade.

Por essa razão, o Ministério da Saúde recomenda que os pacientes ambulatoriais retornem ao posto de atendimento para nova consulta. Recomenda, ainda, que depois da primeira consulta os médicos preencham o Cartão de Identificação do Paciente com Dengue.

 

Tratamento

Não existe tratamento específico para combater o vírus. Sua função é combater a desidratação e aliviar os sintomas.

 

Hidratação oral

No primeiro dia: Administração por via oral de 80 ml/kg de peso corpóreo (um adulto de 70 quilos deve receber: 80 ml x 70 ml = 5.600 ml ou 5,6 litros). Atenção: um terço desse volume deve ser de soro caseiro (preparado com uma colher de chá de sal e uma de sopa de açúcar dissolvidas em 1 litro de água fervida ou filtrada). Os dois terços restantes podem ser de água, sucos de frutas, chás ou água de coco (recomendada).

Do segundo dia em diante até a febre desaparecer: Administração por via oral de 60 ml/kg de peso (um adulto de 70 quilos deve receber: 60 x 70 = 4.200 ml ou 4,2 l).

Para crianças oferecer: 50ml/kg a 60 ml/kg de peso de soro caseiro a cada 4 ou 6 horas. Se houver vômito ou diarreia, esse volume deve ser aumentado. Não há restrição para o aleitamento.

 

Sintomático

Para combater a febre alta e as dores.

a) Dipirona: É o analgésico/antipirético de escolha. Nas crianças usar 1 gota/kg de peso de 6 em 6 horas. Nos adultos, 20 a 40 gotas ou 1 comprimido de 500 mg de 6 em 6 horas.

b) Paracetamol: Em crianças 1 gota/kg de peso de 6 em 6 horas. Em adultos 1 comprimido de 500 ou 750 mg de 6 em 6 horas. Respeitar as doses máximas porque o Paracetamol em doses mais altas tem toxicidade hepática.

 

Notas importantes:

Anti-inflamatórios estão contraindicados por causa do potencial hemorrágico.

Jamais usar antitérmicos que contenham o ácido acetilsalicílico (AAS, Aspirina, Melhoral etc.): podem causar sangramentos.

Não comer alimentos que eliminem pigmentos avermelhados na urina e nas fezes (beterraba, açaí etc.) que possam ser confundidos com sangramento.

Para combater os vômitos e o prurido:

Metoclopramida (Plasil e outros) e Dimenidriminato (Dramin e outros) podem ser usados 3 a 4 vezes por dia;

O prurido, que pode ser incômodo, dura de 3 a 4 dias. Pode ser tratado com banhos frios e compressas com gelo. Nos casos mais rebeldes, administrar antialérgicos comuns.


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