Felicidade

Felicidade

Felicidade não é meta: é consequência. É a colheita das ações plantadas ao longo do tempo

Dalcides Biscalquin

No meu modo de entender, há certo mal-estar rondando a humanidade. Uma acelerada insatisfação. Vejo crescer nas prateleiras das livrarias o número dos livros que prometem ensinar o caminho da felicidade. Nunca na história da humanidade falou-se tanto em vida saudável e feliz. Tenho a leve impressão de que o excesso de discursos sobre o tema não seja sinal de abundância, mas de ausência de felicidade e de uma busca desesperada por algum sinal da sua possível existência.

Felicidade não é meta: é consequência. É a colheita das ações plantadas ao longo do tempo. Por isso, felicidade não se improvisa. Felicidade não é simplesmente sentir-se bem. É fazer o bem. Gostar de viver. Tocar as coisas simples da vida e sentir o sabor do contentamento pela sua gratuidade.

As pessoas que são felizes percebem o mundo como um lugar mais seguro, sentem mais facilidade para tomar decisões, procuram formas mais saudáveis de vida e manifestam mais satisfação e prazer em viver.

Felizes não são pessoas poupadas dos sofrimentos, das dificuldades, dos obstáculos. Mas pessoas que conseguem ver além da própria realidade ou dar um sentido novo e dinâmico ao cotidiano. Certa vez fui convidado a dar uma palestra na cidade de Campo Grande. No dia marcado, cheguei à rodoviária, comprei a minha passagem. Encontrei o meu lugar no ônibus. Notei uma senhora se aproximando com uma criança deficiente mental nos braços. Sentou-se com aquela criança ao meu lado.

O ônibus deixou a cidade de São Paulo e logo a criança, sem nenhuma coordenação motora e balbuciando sons incompreensíveis, parecia ficar a cada quilômetro mais agitada. Duas horas depois, olhei para aquela mãe e disse com ternura: “Senhora, deve ser difícil”. Imaginei, com minhas palavras, estar aliviando o peso que talvez ela estivesse sentindo. Então, com calma e bondade, ela me respondeu: “Difícil, não, moço. Essa criança é o meu presente. O presente que eu ganhei dos Céus”.

Até o fim da viagem, confesso que não consegui pronunciar mais nenhuma palavra. E até hoje ainda me lembro do episódio com constrangimento. Aquilo que para mim seria dor e sofrimento, para ela era a razão de viver. Nem sempre a felicidade está naquilo que é previsível. Muitas vezes ela está na maneira como enxergamos a realidade.

Algumas pesquisas americanas publicadas no periódico American Psycologist revelaram que a felicidade tem relação direta com o fato de termos objetivos, finalidades, motivos para viver. É preciso ter razões para acordar pela manhã. Razões para viver o dia.

As pessoas mais felizes que conheço necessariamente não são as mais ricas, as que ostentam uma ótima saúde, nem as que se destacam pelo grau de inteligência. As pessoas mais felizes que conheço são as que conseguem dar sentido à vida.

E dar sentido à vida começa com as coisas mais simples: buscar pequenos progressos diários, agir de modo feliz, expressar uma face feliz, falar com carinho de si mesmo, procurar tarefas e lazer que utilizem as próprias habilidades, respeitar o próprio corpo, priorizar as relações mais próximas, fazer o bem sem olhar a quem, ser grato em relação à vida, cuidar da própria espiritualidade, cultivar a esperança e os pequenos gestos de amor. Sentido para a vida não é um fato, mas uma forma de olhar o mundo. Por isso, ser feliz é uma descoberta pessoal.

Por outro lado, é fascinante perceber que, quando nos sentimos felizes, estamos mais predispostos a ajudar os outros. O encantamento por viver nos conduz a ajudar as pessoas e também a descobrir sentido para a vida delas.

Cultive, a cada dia, razões para viver. Isso não é garantia de uma vida mais fácil, mas é um caminho para uma vida mais plena, realizada e feliz.