Virtude

Virtude

Virtude é o bom uso de qualquer qualidade individual, mesmo que isso, às vezes, possa parecer contraditório

Max Gehringer

Virtude não tem sexo. Mas já teve. No velho latim, vir era “homem” (e daí veio “virilidade”). Virtudis, em latim, era o nome que se dava ao conjunto de boas características que – naqueles idos de antanho – eram atributos exclusivos do macho da espécie humana: a força, a coragem, o destemor e a energia. A palavrinha vir gerou algumas outras, bem interessantes, que hoje em dia só conservam resíduos arqueológicos de sua origem masculina. É o caso de “virilha” (“partes sexuais do homem”), de “triunvirato” (“três homens”) e de “virtual” (“força corporal masculina”).

Os séculos foram passando e a palavra “virtude”, além de ficar assexuada, engordou uma barbaridade. Hoje, virtude é o bom uso de qualquer qualidade individual, mesmo que isso, às vezes, possa parecer contraditório: o silêncio é uma virtude, assim como é a oratória. A paciência pode ser uma grande virtude, mas a capacidade de tomar decisões rápidas também é. Portanto, o que realmente faz com que os outros percebam em nós uma determinada virtude não é a definição da palavra. É o seu resultado prático. A persistência, por exemplo, é o maior defeito do teimoso e a maior qualidade do visionário.

Já a mulher virtuosa foi um dia definida como casta, prendada e pudica. Se uma mulher ouvisse isso de um homem hoje em dia, provavelmente pensaria que o autor da frase acabou de desembarcar do túnel do tempo. Bem a propósito, meu amigo Reinaldo Polito me mandou um livrinho delicioso, Hontem e hoje, publicado em 1920. O livro traça um retrato das mulheres “apreciadas pela virtuosidade” há mais de oitenta anos e adverte para os riscos que elas corriam se tentassem trilhar caminhos diferentes daqueles que a sociedade (tradução: os homens) entendiam como propícios e salutares.
Um dos capítulos do livro era “As mulheres que trabalham”. E os diálogos – entre um casal conservador, vizinho de duas jovens mulheres que haviam começado a trabalhar (como “dactylographas”) – são uma delícia:

“– Sabes, João, são duas cabeças de vento, aquelas meninas!
– A mulher nunca precisou ganhar dinheiro para viver, e não me consta que alguma morresse de fome…
– Essas mulheres “futuristas”, se não tomarem cuidado, terão que aguentar sozinhas todo o repuxo da vida…”

Parece cômico, e é mesmo. Mas, se a opinião dos vizinhos já não importa tanto, a “cultura interna” das empresas ganhou força e peso ao definir as “virtudes esperadas” em um bom funcionário. Você também tem um chefe que vive chamando de “defeito” o que você sabe que é “virtude”? Então, console-se pensando que, daqui a oitenta anos, publicaremos um artigo chamado “Ontem e hoje”, lembrando como as normas de conduta eram ridículas. E mostrando que o nosso mundo se dividia, como sempre se dividiu, em dois tipos de pessoas: as que acreditavam nas próprias virtudes – e que lutavam por elas – e as que se submetiam à ditadura das virtudes impostas. E a decisão que cada um de nós precisou tomar foi simples: tranquilidade hoje ou reconhecimento amanhã? Porque as virtudes até mudam com o tempo, mas a história não: o presente sempre premiará os obedientes e o futuro sempre será grato aos rebeldes.