Escola Bosque
Pais Atentos
“Qual a vida que vale a pena ser vivida?”

“Qual a vida que vale a pena ser vivida?”

Uma entrevista com o professor Clóvis de Barros Filho sobre o amor, as angústias e o segredo para vivermos felizes.

Entrevista por Gabriel Lellis

Famoso por suas palestras com reflexões sobre temas comuns ao nosso dia a dia, como o amor, a liberdade e a confiança, o professor Clóvis de Barros Filho gosta de rejeitar os títulos de filósofo e pensador que são constantemente atribuídos a ele: “Todos os humanos são pensadores. Na verdade, se olharmos bem, até alguns animais podem ter esse título. Ou seja, quem sou eu para afirmar ser mais pensador ou filósofo do que um orangotango ou um caranguejo?”.

Foi com essa dose de reflexão e bom-humor que o professor Clóvis recebeu a equipe da Pais Atentos para uma conversa sobre a mais universal das perguntas: “Qual a vida que vale a pena ser vivida?”. Confira a seguir:

Pais Atentos: Todos os dias somos bombardeados por estímulos que pregam a necessidade de sermos o tempo inteiro felizes. Afinal, existe algum segredo para alcançar a felicidade?

Professor Clóvis de Barros: Eu não seria prepotente de dizer que não há segredo para ser feliz. Afinal, há milênios o ser humano descobre coisas novas. Prefiro dizer que, na minha opinião, não existe segredo para a felicidade.

A palavra “segredo” pressupõe algo restrito, que apenas algumas pessoas sabem e outras desconhecem totalmente. Pois bem, a felicidade é algo tão buscado que com certeza, se alguém descobrisse alguma fórmula mágica, o mundo inteiro saberia do fato em menos de 30 segundos, graças aos novos meios de comunicação. O que de fato existe hoje são “supostos” segredos, que na verdade, por já terem sido vendidos, não são mais mistério para ninguém, e se de fato funcionassem, a tristeza do mundo teria sido erradicada.

PA: Então se o segredo da felicidade de fato não existe, qual o significado dessa busca?

CB: Quem pergunta qual o segredo da felicidade quer na verdade saber se existe alguma forma prática de garantir esse bem-estar. Vamos imaginar, por exemplo, que para ser feliz é preciso ficar 30 segundos dando cambalhotas todos os dias. Bem, eu com certeza faria esse esforço em troca de um bem estar infinito. 

Porém, se olharmos para nós mesmos e para o mundo chegamos à conclusão de que não erradicamos a tristeza. Acreditamos muito que a felicidade pode ser conseguida por meio de um artifício qualquer, e a meu ver isso é menosprezar a riqueza da vida. Até porque, se existisse um segredo para a felicidade, com certeza desprezaríamos uma série de outras experiências igualmente interessantes e prazerosas para o nosso desenvolvimento e amadurecimento. Então, se eu pudesse deixar um conselho sobre isso, seria: não busque um “segredo” ou uma “verdade absoluta”. Mantenha o coração aberto para o mundo como ele realmente é.

PA: E de onde nasce a angústia que nos faz buscar a felicidade?

CB: A angústia tem uma natureza muito ampla, por isso vou me limitar a falar da que chamamos de existencial. Esta surge justamente a partir do momento que ganhamos lucidez sobre a nossa autonomia, liberdade e consequente necessidade de fazer escolhas o tempo inteiro. A cada segundo nossa vida poderia ser infinitamente outra. Se nossas escolhas fossem diferentes, poderíamos agora mesmo estar em lugares diferentes, vestidos de outra forma e com sentimentos novos. Mas a vida de carne e osso nos impõe abrir mão desse possível infinito existencial. E aí nasce a angústia, a partir dessa condição que nos obriga jogar fora tantas possibilidades em troca de uma solução, uma escolha. Estamos eternamente condenados a tomar decisões dentro da nossa liberdade.

Pensando no ambiente da família e na relação entre pais e filhos, as inúmeras variáveis nos obrigam a educar para a tomada de decisões e para a autonomia. Por isso é tão necessário prepará-los também para lidar com a angústia, e assim prevenir que no futuro eles tomem ações prejudiciais, como terceirizar a vida, entregando suas escolhas na mão de alguém ou de algo.

PA: E como podemos nos preparar para lidar com a angústia?

CB: Formando desde cedo, intelectual e emocionalmente, o hábito de decidir para lidar com as opções que se apresentam ao longo da vida, sabendo atribuir valor a cada uma e identificando quais valem mais a pena. Lamentavelmente, a sociedade de hoje tem essa falha de desenvolver pouco a formação do espírito decisório.

PA: Esses estímulos de busca por uma felicidade constante são uma prova de que a sociedade está com medo de sentir tristeza, mesmo que este seja um sentimento tão comum e, por vezes, necessário para nossa formação e amadurecimento?

CB: No final das contas, hoje realmente estamos falando muito sobre o que é uma vida feliz. Porém, ao mesmo tempo, essa reflexão tem sido empobrecida por protocolos frágeis e práticas humanas. Hoje, por exemplo, atrelamos muito nossa felicidade a certas atividades de consumo que nos condenam a um estado de bem-estar temporário. Sempre que compramos algo, quase no mesmo instante passamos a desejar outra coisa. Você nunca vai encontrar uma publicidade que diga algo como: “Agora que comprou o produto dos seus sonhos, vá refletir sobre o que ele significa para a sua vida e divirta-se, pois você já tem tudo de que precisa”. Definitivamente não me lembro de ter visto algo assim em lugar algum.

Portanto, é evidente que na vida somos tentados a viver na busca por encher um saco sem fundo. E se somos muito pouco educados para lidar com o desejo, então estamos propensos a não saber lidar com os altos e baixos da alegria também.

PA: Essa questão do consumo se reflete de que forma nas relações humanas?

CB: Esse processo cíclico de desejo e consumo se reproduz no afeto. O verbo “ficar”, muito usado pelos jovens quando querem dizer que beijaram alguém, é a tradução do consumo para as relações humanas. Um celular novo é sempre mais interessante do que um modelo antigo. Da mesma forma, uma companhia nova pode ser, aos olhos dessa razão social, mais interessante do que estar com alguém durante vinte anos.

Precisamos despertar para o pensamento de que o inédito pode estar no mesmo lugar. Traduzindo em uma frase: uma experiência nova pode estar dentro de um celular antigo, e um novo amor pode estar sempre dentro da mesma pessoa.

PA: Essa lógica de mercado nas relações humanas impede a existência de um amor perfeito?

CB: Acho que a palavra perfeição para um afeto é um tanto abusiva. O amor é o que é. Por trás das relações afetivas muitas vezes criamos um certo receito de assumir a própria fragilidade, e isso se traduz como negação dos próprios afetos, inclinações e dependências afetivas. Assim, acabamos criando uma espécie de teatro onde aquilo que sentimos é escondido em nome de uma certa postura “blasé” nos relacionamentos. O amor está justamente nas relações em que você fica à vontade para revelar seus medos e fraquezas e o outro não se aproveita disso para revelar sua tirania.

PA: Como traduzir essa questão do amor e das fraquezas nas relações, por exemplo, entre pais e filhos, que de certa forma pressupõe obrigatoriamente um tipo de poder?

CB: Se você alguma vez já se sentiu contagiado com a alegria de outro e também já ficou mal pela sua tristeza, então com certeza amou alguém numa forma mais pura. E a relação entre pais e filhos segue muito essa lógica.

Muitos pensadores irão defender a tese de que o ser humano vive na mais estrita animalidade, que somos apenas mais um animal em busca do próprio prazer. Porém, ainda acredito que existe na nossa natureza uma transcendência da animalidade em uma perspectiva de afetividade mais pura, sem nenhum interesse pessoal como motor.

Vislumbro a possibilidade do ser humano ter uma preocupação genuína com os outros em muitos momentos. Até porque, veja bem, se não fosse assim, a ética seria só baseada no medo. Podemos dizer que a ética se concentra justamente nessa diferença entre o comportamento egocêntrico e solitário e na partilha de uma convivência com o outro, pressupondo sempre uma consideração pelas pessoas. Se não fosse assim, não haveria diferença entre um canalha e um não canalha, pois todos seríamos canalhas.

PA: Agora a pergunta para encerrarmos: que mensagem o senhor gostaria de transmitir para nossos leitores, principalmente os jovens, que devem estar cheios de questionamentos e reflexões após a nossa entrevista? Que mundo o aguarda?

CB: Outro dia eu participei de um encenação teatral de uma obra chamada “Cartas a um Jovem Poeta”. Terminada a apresentação, um espectador me perguntou se o personagem tinha conseguido realizar o sonho de ser poeta. A resposta é não. Então surgiu o questionamento se aquele jovem deveria ter sido advertido antes de nutrir tantos sonhos sobre o seu futuro. Imediatamente alguém levantou a mão e disse: “Eu sou engenheiro, se eu contasse tudo de difícil que tem na profissão, não haveria mais ninguém para projetar coisas”. Então seria o caso de afirmar que se formos honestos demais com nossos jovens estaremos deixando-os encurralados e sem escolha? Cheguei até a pensar que se um bebê na barriga da mãe tivesse a chance de perguntar como é o mundo, muito provavelmente ele nunca iria querer sair de lá.

Eu prefiro assumir uma postura contrária, e dizer que a vida é o que ela é. Meu conselho: a vida é feita de momentos entristecedores, mas também é feita de felicidade e alegria. E todos esses sentimentos são resultado de uma vida em sociedade, cheia de gente igual e diferente de nós.

Mas apesar de todas as dificuldades, que por vezes nos fazem perder a esperança, há uma série de bons indicadores que devem sempre nos incentivar a seguir em frente. E eu quero acreditar que há um desejo da maioria da sociedade de sempre evoluir e seguir em frente.

De qualquer forma, não podemos nunca nos esquecer de dar aos nossos jovens uma formação moral sólida, para que eles possam refletir sobre a justiça dos seus atos por meio da lucidez, e não pelo medo. Só assim continuaremos caminhando rumo a uma sociedade mais justa e feliz.