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Quero? Devo? Posso? Três perguntas essenciais para cuidarmos da vida coletiva

Quero? Devo? Posso? Três perguntas essenciais para cuidarmos da vida coletiva

Quanto mais sólidos os nossos princípios éticos, mais facilmente os dilemas da vida são superados.

Mario Sergio Cortella

É impossível pensar em ética se a gente não pensar em convivência. Afinal, o que é a ética? A Ética é o que marca a fronteira da nossa convivência. Seja com as outras pessoas, seja com o mercado, seja com os indivíduos. Ética é aquela perspectiva para olharmos os nossos princípios e os nossos valores para existirmos juntos. Quando o seu pai falava “nesta casa não se faz isso”, o que ele queria dizer? Que “neste convívio, neste lugar onde somos o que somos, onde temos a nossa família, não se faz isso”. Por tal motivo, algumas empresas dizem: “Não fazemos qualquer negócio”. Porque existem outras cujo lema é “fazemos qualquer negócio”.

As que sustentam o princípio de “não fazemos qualquer negócio” são as que têm a capacidade de desenvolver conhecimento e tecnologia para gerar vida, não para diminuí-la. Para gerar proteção da vida.

Qual é o nome do conjunto de princípios e valores de conduta que uma pessoa, ou um grupo de pessoas, tem?

Ética. E de onde vem a palavra “ética”? Do grego ethos, que até o século VI a.C., significava “morada do humano”. A expressão domus, em latim, é uma tradução do grego ethos. Ethos é o lugar onde habitamos, é a nossa casa. “Nesta casa não se faz isso”, “nesta casa não se admite tal coisa”. Ethos também significa “marca” ou “carácter”. Eu vou usar “carácter” com “c”, como o jeito lusitano de escrever, de propósito. Porque você fala em “carácter”, “característica” é aquilo que te marca. Ethos é a morada do humano, ethos é a fronteira entre o humano e a natureza. Quem manda nos outros animais? Tem um cachorro autonomia? Tem um cavalo autonomia? Em nenhum momento. Eles obedecem a regras que são anteriores e superiores a eles. Qual o nome que a gente dá a essas regras da natureza? Instinto.

Nós, humanos, vivemos em condomínio. Nós temos autonomia, porém, não temos soberania. Não agimos por instinto. Agimos por reflexão, por decisão, por juízo. A ética é o conjunto de princípios e valores da nossa conduta na vida junta. Portanto, ética é o que faz a fronteira entre o que a natureza manda e o que nós decidimos. A ética é aquilo que orienta a sua capacidade de decidir, julgar, avaliar. Só é possível falar em ética quando falamos em seres humanos, porque ética pressupõe a capacidade de decidir, julgar, avaliar com autonomia. Portanto, pressupõe liberdade.

A ética é um conjunto de princípios e valores que você usa para responder às três grandes perguntas da vida humana: Quero? Devo? Posso?

O que é a moral? A prática da resposta.

Nós vivemos muitas vezes dilemas éticos. Há coisas que eu quero, mas não devo. Há coisas que eu devo, mas não posso. Há coisas que eu posso, mas não quero. Quando você tem paz de espírito? Quando tem um pouco de felicidade? Quando aquilo que você quer é o que você deve e o que você pode. Todas as vezes que aquilo que você quer não é aquilo que você deve; todas as vezes que aquilo que você deve não é o que você pode; todas as vezes que aquilo que você pode não é o que você quer, você vive um conflito, que muitas vezes é um dilema.

Uma empresa, para trazer a ética para o dia a dia, precisa manter vivas essas questões entre seus funcionários, fomentando a reflexão e o comportamento crítico. Parodiando a antiga e verdadeira frase sobre democracia, a ética é uma plantinha frágil que deve ser regada diariamente. E a melhor forma de fazer isso é trazer o tema para o cotidiano, lembrando que a ética não é algo que nos dá conforto, mas algo que nos coloca dilemas.

Você, executivo de uma empresa, precisa, por exemplo, desembaraçar uma carga que está no Porto de Santos. A nova peça para uma parte essencial da usina. Não dá para desembaraçar pelo trâmite normal antes de seis meses. Mas existe “taxa de facilitação”. Pagar ou não pagar? Aí você pensa assim: “Se eu não pagar, a gente fica sem a peça e vai paralisar parte da usina. Com isso, não só diminuirão a lucratividade e a produção, como possivelmente o número de empregos naquela área será reduzido. Então, embora seja imoral pagar propina, há uma justificativa para isso, existe um mal menor”.

Pagar ou não? Pode-se pagar e começar a criar um mau hábito nessa área ou ter de dar um basta e assumir o risco. Há empresas que se recusam literalmente a pagar propina. “Nós perdemos negócios, mas não pagamos.” Os acionistas concordam? Sim. Está nos princípios. Se eles concordam, não se paga, perde-se o negócio, diminui-se a lucratividade, perde-se até a rentabilidade, mas não se abre mão dos princípios. Qual a lógica que alguns usam? A necessidade de criar futuro. Qual a suposição que eles têm? Que esse sistema de apodrecimento das relações de negócio cada dia aumenta mais e, num determinado momento, vai desabar.

Portanto, o que é ética? São os princípios que você e eu usamos para responder ao “Quero? Devo? Posso?” É preciso remarcar: isso não significa que você e eu não vivamos dilemas. Eles existem e serão mais tranquilamente ultrapassados quanto mais sólidos forem os princípios que tivermos e a preservação da integridade que desejarmos.