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Negócios do bem: Empreendedorismo social traz satisfação e dinheiro

Negócios do bem: Empreendedorismo social traz satisfação e dinheiro

No empreendedorismo social o ganho financeiro deve, obrigatoriamente, vir acompanhado de um objetivo maior: transformar o mundo em um lugar melhor

Por Paula Ungar

Grameen Bank tem 8,2 milhões de correntistas, dos quais 97% são mulheres. Desde sua fundação, em 1983, já emprestou 12,5 bilhões de dólares. Diferentemente de outros bancos, seus clientes preferenciais são os pobres, impossibilitados de adquirir crédito no sistema financeiro tradicional por não ter condições de oferecer garantia ou de arcar com as taxas de juro. Localizado em Bangladesh, rendeu a seu fundador, o economista Muhammad Yunus, o Nobel da Paz em 2006 por estimular o desenvolvimento social por meio das classes mais baixas. O reconhecimento de seu empreendimento, que tem taxa de inadimplência baixíssima (1,15%), levou Yunus a disseminar o conceito que hoje, dez anos mais tarde, ganha cada vez mais adeptos: o do negócio social.

Essa cultura empresarial pressupõe que o ganho financeiro deve obrigatoriamente vir acompanhado de um objetivo maior: transformar o mundo em um lugar melhor. Os novos empreendedores almejam trabalhar por uma sociedade mais justa e se dedicam a uma ideia que já foi vista com desconfiança: associar uma causa ao lucro – até então, promover o bem, atividade de organizações não governamentais excluía a hipótese de obter retorno financeiro. “Esses empresários sabem que para resolver um problema social precisam de sustentabilidade financeira”, afirma Deise Hajpek, coordenadora da rede de Empreendedores Sociais da Ashoka, organização internacional que apoia iniciativas do tipo, presente em mais de 85 países, incluindo o Brasil.

Os gestores à frente desse movimento vêm, em sua maioria, da geração Y. Nascidos entre o início dos anos 1980 até meados dos anos 1990, participaram de profundas mudanças tecnológicas e inauguraram a era da informação. A rápida e globalizada proliferação de notícias revelou um cenário difícil de ignorar: além de crises econômicas, corrupção, tragédias ambientais e atentados terroristas, uma estimativa de 2,2 bilhões de pessoas em situação de pobreza ou quase pobreza (de acordo com o relatório anual de 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

O antigo sonho do status profissional somado ao acúmulo de bens deu lugar, então, à busca por sentido. “Essa geração não procura mais fazer carreira em uma grande empresa. Quer uma função que proporcione uma vida boa, um bom salário, mas que também faça bem ao mundo”, afirma Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemísia, instituição de fomento a negócios de impactos sociais. Na outra ponta, executivos acima dos 45 anos, que já alcançaram sucesso profissional em áreas tradicionais, também aderem ao modelo, quase sempre em momentos de balanço e reflexão sobre a carreira.

As chamadas corporações sociais seguem as mesmas regras de uma companhia comum: têm de dar lucro, pagam impostos, cumprem obrigações jurídicas. A diferença está no propósito de oferecer um produto ou serviço que melhore as condições de vida das pessoas, principalmente das que estão na base da pirâmide. Já existe, no Reino Unido, um órgão regulador ligado ao governo que ajuda a aferir se uma empresa realmente atinge esse objetivo. Esse escritório avalia relatórios anuais em que são comprovados os resultados transformadores sobre a sociedade.

Por aqui, o modelo ainda é recente. E, por ser novidade, não possui legislação específica. Mas as empresas sociais contam com o apoio de instituições internacionais com base no país, além de fundos de investimento interessados em fomentar esse mercado. Há, hoje, cerca de 177 milhões de dólares destinados a alavancar negócios com impacto social injetados no mercado brasileiro. Em apenas três anos, subiu de sete para 20 o número de investidores com foco em empresas sociais atuando em nosso país. Os incentivos para a atividade ainda vêm sob a forma de premiação. Muito desse novo nicho de mercado atua nos meios digitais. Dos 1,2 mil gestores ouvidos em uma pesquisa coordenada pela fomentadora Artemísia entre 2011 e 2015, 59% dependem diretamente da rede e de aplicativos no celular ou no computador para distribuir serviços. Os homens ainda são maioria (69%). Mas Deise, da Ashoka, aponta vantagem no perfil feminino: “O lado cuidador faz com que elas tragam soluções criativas”.


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Vivemos, atualmente, uma espécie de síndrome da modernidade: tudo o que estiver envolvido em uma aura de tecnologia é considerado de qualidade positiva, mas é preciso ter cautela.