Debate ou diálogo? Qual o melhor?

Debate ou diálogo? Qual o melhor?

Todos têm o direito de defender suas ideias como verdades, até que alguém os convença do contrário e mostre os furos delas.

Por Heródoto Barbeiro

O mundo passa por um sopro de diálogos turbinado pela fluidez das redes sociais. Tudo se torna mais fácil com os tradutores simultâneos, que facilitam a compreensão de quem fala curdo e não entende o lapão. Ou seja, as ferramentas para o diálogo estão à disposição de todos, não importa para quem, onde e quando.

Graças a essa tecnologia o diálogo não está mais restrito a duas pessoas, mas a inúmeras. Todos que quiserem participar entram na roda e dão a sua contribuição. Há uma predisposição para o entendimento comum, onde é possível ouvir, entender e depois tentar um consenso sobre um determinado assunto ou visão de mundo. Assim, em um processo colaborativo é possível ver todos os lados do tema e chegar a uma conclusão. As pequenas arestas ficam para trás e ninguém sai derrotado porque o seu ponto de vista não foi totalmente descartado pelo grupo.

Para que o diálogo progrida é preciso pureza de coração, respeito às regras éticas e o propósito de contribuir para que a vida de todos melhore. Ao pisar na arena do diálogo é preciso deixar do lado de fora o ego. Não há espaço para os donos da verdade, profetas ou candidatos a ditadores de fancaria.

A única coisa que se admite é um bornéu com algumas ideias que possam enriquecer o encontro e proporcionar o nascimento de um consenso e de uma nova postura de vida que vai beneficiar a todos. Seja a elaboração de um programa escolar, seja uma atitude para amenizar a destruição do meio ambiente, seja uma reunião de chefes de Estado para impedir o desenvolvimento de bombas nucleares.

Em outro espaço cabe o debate. Tão necessário à sociedade humana como o diálogo. Todos os participantes se apresentam com suas ideias. O importante não é vencer e impor a sua visão de mundo a todos, mas comparar ideias diferentes. Não há adversários como muitos pensam. Há protagonistas imbuídos de suas concepções,  e nada mais lógico do que tentar convencer os demais que está certo.

Nesse processo, antes de entrar na arena é preciso estar munido apenas de ideias. Não são admitidos ataques pessoais, ódio, revanchismo de qualquer espécie, nem descaracterizar o oponente. É o momento de se contrapor ideias, concepções, visões de mundo, e não um choque de egos.

Todos têm o direito de defender as suas ideias como verdades, até que alguém os convença do contrário e mostre os furos e a insustentabilidade delas. Mostrar a inviabilidade de uma ideia não é uma declaração de guerra. É uma vitória do bom senso, do desenvolvimento social, ainda que o que foi aprovado não é o que eu penso. Por isso o debate não termina nunca. E nem deve terminar. É um turbilhão criativo, que se modifica eternamente, e todos devem lembrar que só não morre o que está em constante mudança. Em resumo, é a destruição criativa, segundo Schumpeter.

Não é possível eleger o que é melhor para a humanidade: se o diálogo ou o debate. Ambos são necessários para esta caminhada que não tem começo ou fim. São as duas asas de um mesmo pássaro. Ainda que antagônicas, sem uma delas o pássaro não alça voo, e os pássaros têm a sua própria linguagem, segundo o mestre sufi Farid ud Din Attar.

Ficou muito mais fácil dialogar ou debater com qualquer pessoa, entidade, governo, empresa em qualquer ponto do globo terrestre. Com isso retiram-se das mãos dos governos e da mídia as versões que convenientemente servem ora um, ora outro, ora os dois. É possível checar versões de fatos, diluir ódio político, étnico e cultural. Com os canais à disposição das pessoas é possível construir determinadas ações globais, como a defesa da vida, o socorro às vítimas de grandes catástrofes, o auxílio para combater epidemias devastadoras, a defesa dos animais, da água e do meio ambiente, e muito mais. Não vamos esquecer que a mesma faca que descasca o alimento pode se transformar em uma arma letal. Depende das intenções de quem a maneja.