Tela ou papel, digital ou analógico: a leitura em tempos de internet

Tela ou papel, digital ou analógico: a leitura em tempos de internet

Ian Brenman analisa a importância da leitura nos dias atuais

Por Vagner Apinhanesi

Com os avanços tecnológicos e a disseminação dos smartphones e tablets, fica cada vez mais difícil convencer uma criança a largar os equipamentos digitais, sair da internet e pegar e ler o bom e velho livro de papel. Em tempos de redes sociais, bate-papos virtuais, comentários e curtidas em fotos postadas na web, parece que o livro perde cada vez mais espaço. Qual o impacto disso no desenvolvimento das crianças? A leitura feita em tablets é diferente da convencional, do livro de papel? Essa mudança afeta o processo cognitivo e o desenvolvimento da criança? 


Conversamos sobre esses temas com Ilan Brenman, mestre e doutor em Educação pela USP e um dos principais escritores de literatura infantil do Brasil, com mais de 60 obras no currículo. Brenman explicou sobre os benefícios da leitura e deu dicas de como estimulá-la junto às crianças. Confira, a seguir, a entrevista.


Pais Atentos – As crianças têm acesso a smartphones e tablets cada vez com menos idade. A leitura feita a partir desses aparelhos acaba diminuindo a importância dos livros de papel ou substituindo-os? 
Ilan Brenman – Hoje, mais do que nunca, a leitura literária (aquela feita em livros), é vital para as crianças, talvez até mais importante do que foi em outras épocas. Parece até uma contradição, já que podemos pensar que as crianças teriam acesso mais fácil à leitura pela internet e pelos tablets, por exemplo, mas é exatamente por isso que a leitura literária é mais importante, porque essa leitura que a criança hoje faz, vinculada às redes sociais e internet, é diferente. 

Tem criança com 6, 7 anos com celular, e eu, particularmente, acho isso um erro, porque esse tipo de aparelho rouba a infância dela, apesar de também envolver leitura, mas dos bate-papos pelo WhatsApp, dos comentários nas fotos postadas no Instagram. Nada contra o uso das ferramentas digitais, mas sim o uso não controlado pelos pais, completamente sem limites. São ferramentas muito bacanas, mas que acabam se tornando uma obsessão por parte das crianças, roubando o tempo do brincar, estimulando uma forma diferente da escrita convencional. Porém, se as crianças não tiverem o parâmetro do que é a escrita correta, acabam achando que aquela utilizada nas redes sociais, abreviada, com substituição de letras, é a normal, e isso afeta diretamente o pensamento e o lado cognitivo da criança.
Tenho duas filhas, uma de 8 e outra de 11 anos. A mais nova ainda não está obcecada pelas redes sociais. Mas para a outra, que já tem celular, colocamos limites, mesmo que ela ache ruim e brigue conosco. À noite, por exemplo, os celulares são desligados, para evitar que elas fiquem o tempo todo conectadas, e assim sobra tempo para a leitura de um livro, para conversar com os pais. 


PA – Então, a leitura de livros continua indispensável? 
IB – A leitura do livro de papel trabalha em outro campo cognitivo, mexe com outras partes cerebrais, segundo pesquisadores. Estimula funções cognitivas que, se não forem exploradas, atrofiam. Mesmo que a criança utilize um tablet para ler, não é a mesma coisa, porque ela acaba se distraindo, entra em jogos ou em outros links e dispersa a atenção. A ideia do conteúdo do tablet é a dispersão, é um objetivo consciente. O Kindle (dispositivo para leitura de e-books em tablets e smartphones) tem um funcionamento que permite a concentração, mas a criança dificilmente usará um aplicativo desse tipo.
O livro pede outro tipo de relação, e é por isso que a Associação Americana de Pediatria recomendou que pais e mães de crianças recém-nascidas e de até 3 anos de idade se utilizem de livros de papel, orientando evitar ao máximo as mídias digitais. Assim como recomenda o aleitamento materno, faz o mesmo com a leitura em voz alta para essas crianças. E essa é uma orientação que vem de um país que é o centro do mundo tecnológico. A voz do pai ou da mãe tem outro impacto no cérebro da criança. Pesquisas feitas em renomadas universidades americanas, como Harvard e Yale, mostram que crianças que utilizaram tablets para ler determinadas histórias não conseguem responder eficazmente perguntas sobre o que leram, justamente por causa da dispersão. Em contrapartida, crianças que leem a mesma história em papel têm respostas muito mais eficientes e corretas do que aquelas outras. 


PA – A tecnologia pode ser uma aliada nesse processo?
IB – A internet é uma ferramenta poderosa, mas temos de saber usá-la. Infelizmente, hoje em dia, os pais e as crianças estão fazendo uso errado dessa ferramenta. Precisamos utilizá-la com equilíbrio, saber quando e como usá-la, já que a tecnologia está inserida em nosso dia a dia. As pesquisas estão mostrando que crianças que se utilizam muito dos meios digitais acabam tendo um entendimento mais superficial do conteúdo, ficam mais dispersas, sem contar que a ansiedade vai para as alturas, porque ficam esperando sempre coisas novas. E o livro de papel é o oposto disso, porque pede acolhimento, relação e silêncio, uma coisa que nos falta tanto hoje em dia. 
Plutarco, pensador grego nascido no ano 45 d.C., escreveu um livro que tem 2 mil anos, mas ainda é atual, que aborda a tagarelice, onde diz que estamos falando tanto que perdemos a capacidade de ouvir o outro. Quando o pai ou a mãe leem um livro para o filho, faz com que ele escute a voz, olhe para o rosto de quem está lendo, é um momento único. 


PA – E qual é a sua opinião sobre as teorias que preveem que os livros e demais publicações impressas estão com os dias contados?
IB – Já decretaram a morte do livro várias vezes durante as últimas décadas, mas acho que o jornal e a revista  de papel vão acabar antes que o livro, que permanece forte perante essas previsões. Humberto Eco tem um livro onde diz que existem objetos que foram criados e que são perfeitos, como, por exemplo, o martelo, a roda. O livro também é um objeto perfeito. Podem até existir avanços tecnológicos que são empregados nesses objetos, no caso do livro, o tipo de papel, o projeto gráfico, a impressão, mas sua essência continua a mesma. E o acesso a seu conteúdo não muda, basta pegá-lo e lê-lo, diferentemente com o que acontece com as mídias digitais, que precisam de um aparelho para serem reproduzidas, e a mudança na tecnologia faz com que esses aparelhos, com o tempo, deixem de ser fabricados. A fita cassete e o disquete, entre outros, são exemplos de suportes cujos conteúdos são praticamente inacessíveis hoje em dia. Já um pergaminho da época de Jesus, encontrado no Mar Morto, pode ser lido sem problemas, se você souber aramaico.
Sou muito esperançoso com o livro por causa disso, e o mercado reage a isso também. Nunca se produziu tanto livro quanto atualmente, para crianças e adultos, pois a tecnologia, nesse caso, facilitou a produção dos livros. Esse é o lado bom. Mas o lado ruim é que se produz tanto que as livrarias estão lotadas de obras, e muitas vezes as pessoas não conseguem nem distinguir os bons livros dos ruins. 


PA – A contação de história também estimula o hábito da leitura junto às crianças?
IB – Aqui precisamos fazer uma distinção. Quando falamos em contação de história, estamos nos referindo à oralidade, sem a presença do livro. É diferente do ato de pegar um livro e lê-lo em voz alta para uma criança, o que acaba sendo uma opção nos casos em que os pais não têm um repertório ou a prática para a contação de história. Apesar de que as crianças não são tão exigentes com os pais quando eles se predispõem a contar uma história para elas. Os pais não precisam ser profissionais, fazer cursos, preparar a voz, basta estarem a fim de fazer. Afinal de contas, é o pai ou a mãe da criança, e ela vai adorar essa experiência. 
A contação de história é uma coisa fantástica, porque aproxima a família, cria intimidade entre pai/mãe e filhos. Também proporciona para a criança um estímulo fenomenal da imaginação, porque não tem nenhum instrumento que está fazendo a intermediação entre a história e ela. A criança acaba produzindo essa história na cabeça dela, então se estimulam sinapses novas, conexões e caminhos novos para os neurônios. E se os pais, quando terminarem a história, falarem que ela faz parte de determinado livro, uma criança com mais idade, com 3, 4, 5 anos ou mais, pedirá para que os pais leiam aquele livro para ela, criando o desejo pela obra. Então funciona bem como estímulo à leitura. Recentemente, escrevi um artigo para a revista Crescer, no qual eu enumero 15 histórias que os pais devem contar para os filhos antes de eles crescerem. Poderia citar muitos outros, mas recomendei estes: Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, Rapunzel, O Leão e o Ratinho, A Moura Torta, Histórias do Saci, A Madrasta e a Figueira, O Patinho Feio, A Bela e a Fera, João e Maria, Cachinhos Dourados, Cinderela (A Gata Borralheira), Os Sete Cabritinhos, Branca de Neve e A Princesa e a Ervilha. 


PA – O livro nas escolas pode ter uma função além da educativa?
IB – Acredito que o desafio hoje é tirar o caráter meramente escolar do livro. Nada contra esse tipo de utilização, até pelo contrário, mas devemos levá-lo para outros campos. Na realidade, o livro sempre foi usado nesse sentido mais educativo, e às vezes de maneira até exagerada. O livro para criança já surgiu com o propósito de educação. Livro e escola se tornam praticamente sinônimos. O grande movimento hoje é fazer justamente o contrário disso, ou seja, usar a literatura como uma função artística, de fruição, de prazer. Mostrar para a criança que através da leitura ela cresce espiritual e cognitivamente. E não é preciso falar isso diretamente, pois ela entenderá quando lhe for oferecido um bom livro. A criança deve perceber que não precisa ter um ganho direto para ler, pois a própria leitura já é o ganho, o presente. 


PA – Que dicas você daria para os pais que querem estimular o hábito da leitura nos filhos?
IB – Primeiramente, é preciso saber se os pais têm o hábito de ler, pois o modelo é fundamental. Os pais não podem exigir dos filhos algo que eles mesmos não praticam, então as crianças têm de ver seus pais com jornais, revistas, livros nas mãos. O livro precisa estar acessível, portanto, montar uma biblioteca para as crianças ajuda demais, não precisa ter muitas obras, cerca de 20, 30 livros já são suficientes. E, também, frequentar livrarias, se não tiver recursos para comprar livros, ir às bibliotecas públicas. Esses são os caminhos principais.


PA – Sua mais recente obra se chama A Sabedoria do Califa. Sobre o que fala o livro?
IB – Trata-se de um reconto árabe que mostra um lado do islamismo pouco conhecido. O livro foi ilustrado pelo espanhol Iban Barrenetxea. Neste momento em que todo mundo está meio histérico e preocupado com o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e tudo mais, é muito legal poder resgatar um islamismo onde eles tinham uma relação muito forte com a cultura, com o conhecimento, com a tolerância, com o humor, e mostrar que existe esse outro lado também, que esses grupos extremistas não representam a totalidade dessa cultura. É uma história muito engraçada, bem sábia e linda.

 


Felicidade
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Felicidade não é meta: é consequência. É a colheita das ações plantadas ao longo do tempo