Avós que participam da criação dos netos: como lidar?

Avós que participam da criação dos netos: como lidar?

Saiba como encontrar o equilíbrio quando os avós também cuidam dos pequenos

Fernanda Maranha

Cuidar de uma criança é sempre um desafio. E entre todos os percalços de se preocupar com a criação e educação dos filhos, um que permeia a vida de muitos pais, mães e responsáveis é a falta de tempo. Muitos trabalham durante o dia, em jornadas que duram mais do que o tempo que os filhos ficam na escola. A solução encontrada por grande parte dos pais é deixar as crianças com os avós, como é o caso de Andreza Rosa.

Andreza é gerente de projetos, tem 37 anos e dois filhos: Filipe, de doze, e Maria Clara, oito. Ela conta que quase nunca tem hora para sair do trabalho: “Entro às 9h da manhã e só Deus sabe a hora que vou sair. Às vezes fico até às 19h, outras, até às 21h”. Seu esposo também trabalha fora de casa, então, enquanto não estão na escola, as crianças ficam com os avós maternos: Antenor e Graça. Quando os avós ficam tanto tempo com os netos, acabam participando mais da criação dos pequenos, o que pode criar conflitos entre os pais e os avós, conforme atesta a psicóloga e psicopedagoga Viviane Rossi. “O maior problema de os avós ficarem a maior parte do tempo com os netos é quando eles precisam assumir o papel de educar e colocar limites necessários para a criança. Nesses casos, muitas vezes acaba ocorrendo um grande desgaste emocional tanto para os avós quanto para os netos”, diz a especialista. Segundo a psicopedagoga, o desgaste acontece porque há uma mudança do papel predeterminado, e os avós deixam de “curtir” os netos – como costuma acontecer normalmente – e precisam se atentar às obrigações quando o ritmo biológico já está diminuído. “Muitas vezes eles perdem a paciência e se estressam com a rotina”, revela Viviane.

Outro tipo de conflito que pode ser vivenciado nessa situação é quando os avós mimam demais a criança, permitindo comportamentos inadequados, que os pais não deixariam, diz a psicóloga. O caso de Andreza é um exemplo disso: “O avô mima um pouco as crianças, principalmente o Filipe. Por ser o primeiro neto, meu pai é apegado demais a ele”. Diante disso, ela confessa que às vezes acaba discutindo com o pai, mas reconhece o papel que ele tem em educar.

Viviane explica que, quando os avós estão influenciando negativamente na criação dos netos, os pais precisam conversar com eles e deixar claro como pretendem educar os filhos. “Se for o caso, vale a pena até buscar ajuda profissional para a definição desses papéis educativos, porque isso beneficia a criança com menos confusões”, recomenda a psicóloga.

Andreza acredita que, por seus pais ficarem tanto tempo com os netos, eles também têm papel essencial na criação: “Quando vejo meus pais educando, não interfiro. Faço a mesma coisa com o meu marido, por exemplo. Todos sabem a importância de não se intrometer quando o outro estiver educando”, diz. Para Viviane, quando os papéis de pais e avós são bem definidos, sendo pai e mãe os responsáveis por assumir a educação e impor limites aos filhos, os benefícios para as crianças são maiores: “Os avós podem ser modelos de adultos tranquilos, que acompanham e apreciam o desenvolvimento dos pequenos. Assim, se tornam adultos que proporcionam confiança e segurança emocional”, diz. Os avós também saem ganhando neste caso, pois podem apreciar essa fase da criança de maneira mais livre e despreocupada. Para que os papéis não se invertam, Viviane explica que os pais devem ter seus acordos diretamente com os filhos, sem deixar tantas decisões da educação e atribuições para os avós. Ou seja, é preciso que os pais exerçam a função de dizer o que as crianças podem ou não fazer, sem se importar se elas estão na companhia dos avós. “Quando há mistura de papéis ou quando um dos lados se acomoda, a relação pode ficar conturbada, e quem sofre os maiores prejuízos é a própria criança”, alerta Viviane.

Outra função importante que os pais devem manter, segundo Viviane, é o contato com os filhos durante o dia. “Ligar para os filhos para saber das lições, dos estudos, do que aprenderam no dia e lembrá-los dos compromissos são alguns exemplos de como fazer isso”, explica. Além disso, a psicopedagoga cita a revisão de agendas, lições de casa e provas como itens que os pais devem se preocupar em checar com os filhos ao chegar em casa, mesmo que seja tarde da noite.

Andreza se preocupa com tais atribuições e usa a tecnologia a seu favor para otimizar seu contato com os filhos. “Estudo com eles, muitas vezes, de forma remota. Também corrijo lições e os ajudo a fazer trabalho. Eles mandam foto e eu vou comentando”, revela a gerente de projetos, que também usa a internet para perguntar como os filhos estão e se estão precisando de alguma coisa.

As vídeo-chamadas também são aliadas de Andreza, principalmente quando ela passa do seu horário comum de saída e fica muito tempo fora de casa: “Uso [as vídeo-chamadas] para matar a saudade, para jogar papo fora ou só ficar de chamego mesmo, assim eles podem me sentir mais próxima”.

Quando as relações entre avós, pais e crianças são bem resolvidas, assim como os papéis prestabelecidos de cada um na criação dos pequenos, passar os dias com os avós, como é o caso dos filhos de Andreza, pode ser superbenéfico. Viviane explica que, pela convivência com os mais velhos, a tendência é que a criança criada pelos avós, nessas condições, tenha uma conduta mais tranquila.

Mas, se houver inversão nos papéis de pais e avós, com ordens diversas vindo de cada familiar, a psicóloga afirma que o desenvolvimento da criança pode ser conturbado – assim como a relação de toda a família. “Dessa maneira, a criança tenderá a se tornar estressada, impaciente e confusa”, conclui Viviane. Por isso, nos casos em que há problemas na interação entre pais e avós, recomenda-se a busca de ajuda profissional com um psicólogo ou terapeuta familiar.