Aprender a conviver

Aprender a conviver

Existe grande preocupação dos educadores com relação à formação inicial das crianças, pois parece estar cada vez mais difícil a integração delas, de forma conveniente, na sociedade.

Paulo Rabelo Corrêa

Todo ser humano almeja alcançar a felicidade permanente ao longo de sua vida. No entanto, esse objetivo, tal como ocorre em relação aos conhecimentos em geral, há de ser fruto de aprendizagem que se inicia no âmbito familiar e que, sem dúvida, há de ser complementada no seio das instituições escolares.

Existe grande preocupação dos educadores com relação à formação inicial das crianças, pois parece estar cada vez mais difícil a integração delas, de forma conveniente, na sociedade. Além dos problemas de agressividade que afetam alguns educandos, há casos de irritação ou indiferença em relação aos colegas, atitudes estas que não deveriam ser normais.

Esses problemas, no entanto, podem ser revertidos pelo trabalho pedagógico da escola em colaboração com as respectivas famílias, focando na perfeita integração do estudante em sua comunidade, sendo este o pressuposto necessário para que ele, com o próprio esforço, adquira meios para construir sua felicidade.

  

A natureza humana

A opinião com mais adeptos no Ocidente é a de que o comportamento humano é essencialmente egocêntrico, fruto da agressividade inerente à natureza de cada pessoa, de seu espírito de competição e dos conflitos provocados pela preocupação constante com seus interesses pessoais.

É certo que ao longo dos séculos houve vozes discordantes como a de David Hume, ao apontar a “benevolência natural” dos seres humanos, e a de Charles Darwin, ressaltando a existência do “instinto de solidariedade”. Todavia, o entendimento prevalente é de que “a inclinação à agressividade é uma disposição original, instintiva e que subsiste por seus próprios meios” (Sigmund Freud).

Estudos recentes indicam, em termos científicos, que a agressividade humana não é inata, que o comportamento violento é resultante de vários fatores biológicos, sociais, ambientais e situacionais, e que a natureza humana pode ser treinada para conter seus impulsos agressivos, tornando a pessoa serena e atenciosa.

A socióloga Linda Wilson, refutando a tese de que hostilidade e agressividade são características provenientes do instinto de sobrevivência dos homens, examinou mais de cem catástrofes provocadas por fenômenos naturais e verificou existir um forte padrão de altruísmo entre as respectivas vítimas que, trabalhando no sentido de ajudarem-se mutuamente, afastaram a possibilidade de sofrerem posteriormente problemas psicológicos em consequência da situação traumática vivenciada.

Em função disso, constatou-se que a tendência de serem criados fortes vínculos sociais provavelmente esteja enraizada na própria natureza humana, portanto a união entre os integrantes do grupo aumentou a possibilidade da sobrevivência das vítimas. Estudos atuais concluem que as pessoas a quem faltam laços sociais – compaixão e empatia – apresentam sinais de saúde frágil, níveis mais altos de infelicidade e maior vulnerabilidade ao estresse.

  

Empatia e compaixão

Entendemos que a formação de intenso vínculo social deve fazer parte da atividade pedagógica das escolas, posto que ensinar o aluno a “aprender a conviver” constitui uma de suas obrigações. Esse ensinamento, no entanto, não deve ficar restrito ao cumprimento das imposições decorrentes das normas regimentais escolares – ser respeitoso com mestres e colegas; ter disciplina durante as aulas para não prejudicar a si e aos colegas; não agredir física ou moralmente seus pares etc. Deve-se, também, promover a construção nos alunos de vínculos baseados em valores morais que certamente contribuirão para o desenvolvimento de uma comunidade coesa, apta a propiciar a cada participante as condições para construir a própria felicidade.

Para tanto, o aluno deverá aprender não apenas a colocar-se no lugar do outro para entender os problemas do colega (empatia), mas também ajudá-lo em suas dificuldades (compaixão), criando, desta forma, um vínculo afetivo que lhe despertará um sentimento de solidariedade e, por consequência, outro de felicidade. E, também, o fará encarar o colega não como um ser egoísta, mas como uma pessoa em quem pode confiar e com a qual poderá manter uma relação de amizade.

  

Processo pedagógico

Existem formas pelas quais a escola, no desenvolvimento de seu processo pedagógico, pode promover a formação da empatia e compaixão entre seus alunos.

Sabe-se que muitos estudantes são naturalmente retraídos, possuem dificuldade de relacionamento com colegas, isolam-se durante os intervalos das aulas.

Desenvolver estratégias para que esses alunos se integrem ao grupo e tenham acolhimento por parte de seus companheiros é fundamental para que se sintam valorizados e adquiram o equilíbrio emocional imprescindível para o sucesso no aprendizado das diversas disciplinas.

Outra forma de promover o desenvolvimento da empatia e compaixão no alunato se faz por meio da realização de estudos em grupo, nos quais são colocados juntos alunos melhores e alunos com dificuldades. Incentivando-se a troca de opiniões e ideias entre os participantes, consegue-se fazer com que cada estudante não apenas entenda o grau de dificuldade dos colegas como também a importância da colaboração de todos na solução das questões em estudo.

Outros exemplos poderiam ser apresentados. Todavia, a prática pedagógica que tenha por foco o aprendizado de todos, até mesmo dos incluídos, certamente conduzirá os mestres a encontrarem meios e estratégias que despertem o entusiasmo dos alunos em aprender, como um dos caminhos para a construção da própria felicidade.

Se no futuro os brasileiros vierem a ser dotados de empatia e compaixão, certamente hão de conviver em uma sociedade mais tranquila e segura, e ainda terão condições de serem cidadãos felizes e atuantes. É o que todos almejamos.


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