Beleza

Beleza

A beleza é um valor a ser desenvolvido na prática. Ou a Educação é ato estético ou não é Educação.

Por José Pacheco

Se fizermos uma análise de conteúdo dos PPPs (Projeto Político Pedagógico) das nossas escolas, concluiremos que quase todos contêm termos como: autonomia, cidadania, solidariedade... Porém, nunca vi algum PPP que contemplasse a beleza no seu texto como valor a ser desenvolvido na prática. O fato é surpreendente, porque ou a Educação é um ato estético ou não é Educação.

Se a beleza está nos olhos de quem vê, de quem sente, ela requer um exercício de sensibilidade. Mas um currículo que privilegia as áreas ditas nobres (Matemática, Língua Portuguesa...), as artes são remetidas para horários escusos, contraturnos e tempos livres. Se bem que possa haver arte no ensino da Matemática – que, in illo tempore, era disciplina próxima da música –, a clássica aula dificilmente conseguirá  que o ser sensível se revele. E sem a vivência da beleza, somos impedidos de experienciar o amor e a liberdade, que, juntos, nos conduzem pelos caminhos da sabedoria.

A par do consumo cultural das famílias, o curricular desprezo pela área artística talvez seja responsável, por exemplo, pelo “gosto” musical dos jovens do nosso país, um “gosto” que não ultrapassa o nível da indigência. Em lugares públicos, os nossos ouvidos são impunemente agredidos por aberrações expelidas por potentes caixas de som (cujo nível de decibéis faz tremer as viaturas que as transportam), por celulares, por MP3 e outros veículos de propagação de ruído.

Nos idos de 1970, quando partilhava Vivaldi com meus alunos, descobri que só amamos aquilo que conhecemos. Fiquei feliz por lhes ter dado a conhecer Vivaldi e muitos outros gênios da música. E fiquei triste quando conheci Fabio. O moço queria ser violoncelista, mas decidiu estudar Direito. Disse-me: Depois, quando eu tiver um tempo, se verá...

Escreveu Murilo Mendes que a Educação deveria formar as pessoas para serem poetas a vida inteira. Pessoas (porque as escolas são que nelas vivem o drama educacional) que não somente saibam fazer versos, mas vivam em poesia; que percorram o curso da existência a poetizar os seus gestos. Porém, muitas escolas tendem a formar bonsais humanos, criaturas que ignoram que quem nunca se comoveu com uma suíte de Bach para violoncelo talvez nunca tenha existido.

Deve preocupar-nos o fato de muitos professores se deixarem manipular pela praga da cultura de massa. Desde o útero, sofremos a degradação da ética e do sensível. E, para completar a tragédia – que a família inaugura e a escola amplia –, quase toda a mídia parece empenhada numa campanha de imbecilização das massas, que talvez vise manter o povo culturalmente alienado, num estado de subdesenvolvimento estético.

Fui dar uma palestra numa cidade do interior, mas quase não conseguia fazer ouvir a minha voz. Lá fora, a elevada potência de uma aparelhagem de som ampliava a cantoria de uma esganiçada dupla musical. Liguei a TV, eram três os canais disponíveis. Em dois deles passavam novelas. No terceiro, um programa idiota. Desliguei. Fiquei a pensar na sorte de muitos dos nossos cidadãos, privados da fruição do belo. E adormeci a pensar nas escolas... Felizmente acompanhado do concerto dos pássaros, num fim de tarde feito da beleza que têm as pequenas coisas.